Cecília Meireles | Poemas preferidos ♡



MOTIVO 

EU CANTO porque o instante existe 
e a minha vida está completa.
 Não sou alegre nem sou triste: 
sou poeta. 

Irmão das coisas fugidias, 
não sinto gôzo nem tormento. 
Atravesso noites e dias no vento. 

Si desmorono ou si edifico, 
si permaneço ou me desfaço, 
— não sei, não sei. Não sei si fico 
ou passo. 

Sei que canto. E a canção é tudo. 
Tem sangue eterno a asa ritmada. 
E um dia sei que estarei mudo: 
— mais nada. 


RETRATO 

EU NÃO tinha êste rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem êstes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo. 

Eu não tinha estas mãos sem fôrça, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha êste coração que nem se mostra. 

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
— Em que espêlho ficou perdida a minha face? 


 MÚSICA 

NOITE perdida, 
Não te lamento: 
embarco a vida 

no pensamento, 
busco a alvorada 
do sonho isento, 

puro e sem nada, 
— rosa encarnada, 
intacta, ao vento. 

Noite perdida, 
noite encontrada, 
morta, vivida, 

e ressuscitada... 
(Asa da lua 
quási parada, 

mostra-me a sua 
sombra escondida, 
que continua 

a minha vida 
num chão profundo! 
— raíz prendida 

a um outro mundo.) 
Rosa encarnada 
do sonho isento, 

muda alvorada 
que o pensamento 
deixa confiada 

ao tempo lento...
Minha partida, 
minha chegada, 

é tudo vento... 

Ai da alvorada! 
Noite perdida, 
noite encontrada... 


A ÚLTIMA CANTIGA 

NUM dia que não se adivinha, 
meus olhos assim estarão: 
e há de dizer-me: «Era a expressão 
que ela ùltimamente tinha.» 

Sem que se mova a minha mão 
nem se incline a minha cabeça 
nem a minha bôca estremeça, 
— toda serei recordação. 

Meus pensamentos sem tristeza 
de novo se debruçarão 
entre o acabado coração 
e o horizonte da língua presa. 

Tu, que foste a minha paixão, 
virás a mim, pelo meu gôsto, 
e de muito além do meu rosto 
meus olhos te percorrerão. 

Nem por distante ou distraído 
escaparás à invocação 
que, de amor e de mansidão, 
te eleva o meu sonho perdido. 

Mas não verás tua existência 
nesse mundo sem sol nem chão, 
por onde se derramarão 
os mares da minha incoerência. 

Ainda que sendo tarde e em vão, 
perguntarei por que motivo 
tudo quanto eu quis de mais vivo 
tinha por cima escrito: «N ã o». 

E ondas seguidas de saüdade,  
sempre na tua direção, 
caminharão, caminharão, 
sem nenhuma finalidade. 


CONVENIÊNCIA 

CONVÉM que o sonho tenha margens de nuvens rápidas 
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol, 
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio 

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais... 
E por êsse motivo aqui vou, como os papéis abertos 
que caem das janelas dos sobrados, tontamente... 

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios, 
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava, 
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo. 

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria. 
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...) 
E eu pensarei: «Que bom! nem é preciso respirar!...» 


 CANÇÃO 

PUS o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
— depois, abri o mar com as mãos, 
para o meu sonho naufragar. 

Minhas mãos ainda estão molhadas 
do azul das ondas entreabertas, 
e a côr que escorre dos meus dedos 
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da água vai morrendo meu sonho, 
dentro de um navio... 

Chorarei quanto fôr preciso, 
para fazer com que o mar cresça, 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça. 

Depois, tudo estará perfeito: 
praia lisa, águas ordenadas, 
meus olhos secos como pedras 
e as minhas duas mãos quebradas. 


 CANÇÃO 

NO DESEQUILÍBRIO dos mares, 
as proas giraram sòzinhas... 
Numa das naves que afundaram 
é que tu certamente vinhas. 

Eu te esperei todos os séculos, 
sem desespêro e sem desgôsto, 
e morri de infinitas mortes 
guardando sempre o mesmo rosto. 

Quando as ondas te carregaram, 
meus olhos, entre águas e areias, 
cegaram como os das estátuas, 
a tudo quanto existe alheias. 

Minhas mãos pararam sôbre o ar 
e endureceram junto ao vento, 
e perderam a côr que tinham 
e a lembrança do movimento. 

E o sorriso que eu te levava desprendeu-se 
e caíu de mim: e só talvez êle ainda viva 
dentro dessas águas sem fim. 


FIO 

NO FIO da respiração, rola a minha vida monótona, rola o pêso do meu coração. 

Tu não vês o jôgo perdendo-se como as palavras de uma canção. 

Passas longe, entre nuvens rápidas, com tantas estrêlas na mão... 

— para que serve o fio trêmulo em que rola o meu coração?


INVERNO 

CHOVEU tanto sôbre o teu peito que as flores não podem estar vivas e os passos perderam a fôrça de buscar estradas antigas. 

Em muita noite houve esperanças abrindo as asas sôbre as ondas. Mas o vento era tão terrível! Mas as águas eram tão longas! 

Pode ser que o sol se levante sôbre as tuas mãos sem vontade e encontres as coisas perdidas na sombra em que as abandonaste. 

Mas quem virá com as mãos brilhantes trazendo o seu beijo e o teu nome, para que saibas que és tu mesmo, e reconheças o teu sonho? 

A primavera foi tão clara que se viram novas estrêlas, e soaram no cristal dos mares, lábios azues de outras sereias. 

Vieram, por ti, músicas límpidas, trançando sons de ouro e de sêda. Mas teus ouvidos noutro mundo desalteravam sua sêde. 

Cresceram prados ondulantes e o céu desenhou novos sonhos, e houve muitas alegorias navegando entre Deus e os homens. 

Mas tu estavas de olhos fechados 



prendendo o tempo em teu sorriso. E em tua vida a primavera não poude achar nenhum motivo... 


EPIGRAMA N. 4 

O CHÔRO vem perto dos olhos para que a dôr transborde e caia. O chôro vem quasi chorando como a onda que toca na praia. 

Descem dos céus ordens augustas e o mar chama a onda para o centro. O chôro foge sem vestígios, mas levando náufragos dentro. 


ALVA 

DEIXEI meus olhos sòzinhos nos degraus da sua porta. Minha bôca anda cantando, mas todo o mundo está vendo que a minha vida está morta. 

Seu rosto nasceu das ondas e em sua bôca há uma estrêla. Minha mão viveu mil vidas para uma noite encontrá-la e noutra noite perdê-la. 

Caminhei tantos caminhos, tanto tempo e não sabia como era fácil a morte pela seta do silêncio no sangue de uma alegria. 

Seus olhos andam cobertos de côres da primavera. Pelos muros de seu peito, durante inúteis vigílias, desenhei meus sonhos de hera. 

Desenho, apenas, do tempo, cada dia mais profundo, roteiro do pensamento, saüdade das esperanças quando se acabar o mundo... 


CANTIGUINHA 

MEUS OLHOS eram mesmo água, 
— te juro 
— mexendo um brilho vidrado, 
verde-claro, verde-escuro. 

Fiz barquinhos de brinquedo, 
— te juro 
— fui botando todos êles 
naquele rio tão puro. 
..................... 
 Veiu vindo a ventania, 
— te juro 
— as águas mudam seu brilho, 
quando o tempo anda inseguro. 

Quando as águas escurecem, 
— te juro 
— todos os barcos se perdem, 
entre o passado e o futuro. 

São dois rios os meus olhos, 
— te juro 
— noite e dia correm, 
correm, mas não acho o que procuro. 


ÊXTASE 

DEIXA-TE estar embalado no mar noturno onde se apaga e acende a salvação. 

Deixa-te estar na exalação do sonho sem forma: em redor do horizonte, vigiam meus braços abertos, e por cima do céu estão pregados meus olhos, guardando-te. 

Deixa-te balançar entre a vida e a morte, sem nenhuma saüdade. Deslisam os planetas, na abundância do tempo que cai. Nós somos um tênue pólen dos mundos... Deixa-te estar neste embalo de água geando círculos. Nem é preciso dormir, para a imaginação desmanchar-se em figuras ambíguas. 

Nem é preciso fazer nada, para se estar na alma de tudo. 

Nem é preciso querer mais, que vem de nós um beijo eterno e afoga a bôca da vontade e os seus pedidos... 


GUITARRA 

Punhal de prata já eras, 
punhal de prata! 
Nem foste tu que fizeste a minha mão insensata. 

Vi-te brilhar entre as pedras, 
punhal de prata!
No cabo flores abertas, 
no gume, a medida exata, 
exata, 

a medida certa,
punhal de prata, 
para atravessar-me o peito 
com uma letra e uma data. 

A maior pena que eu tenho, 
punhal de prata, não é de me ver morrendo, 
mas de saber quem me mata.


 RIMANCE 

ONDE é que dói na minha vida, para que eu me sinta tão mal? quem foi que me deixou ferida de ferimento tão mortal? 

Eu parei diante da paisagem: e levava uma flor na mão. Eu parei diante da paisagem procurando um nome de imagem para dar à minha canção. 

Nunca existiu sonho tão puro como o da minha timidez. Nunca existiu sonho tão puro, nem também destino tão duro como o que para mim se fez. 

Estou caída num vale aberto, entre serras que não teem fim. Estou caída num vale aberto: nunca ninguém passará perto, nem terá notícias de mim. 

Eu sinto que não tarda a morte, e só há por mim esta flor: eu sinto que não tarda a morte e não sei com é que suporte tanta solidão sem pavor. 

E sofro mais ouvindo um rio que ao longe canta pelo chão, que deve ser límpido e frio, mas sem dó nem recordação, como a voz cujo murmúrio morrerá com o meu coração. 


DESCRIÇÃO 

HÁ UMA água clara que cai sôbre pedras escuras e que, só pelo som, deixa ver como é fria. 

Há uma noite por onde passam grandes estrêlas puras. Há um pensamento esperando que se forme uma alegria. 

Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem, e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia. 

E a água cai, refletindo estrêlas, céu, folhagem... Cai para sempre! 

E duas mãos nela mergulham com tristeza, deixando um esplendor sôbre a sua passagem. 

(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem para fóra da natureza, 

onde não chegará nunca esta água imprecisa, que nasce e deslisa, que nasce e deslisa...) 


EPIGRAMA N. 6 

Nestas pedras caiu, certa noite, uma lágrima. 
O vento que a secou deve estar voando noutros países, 
o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira, 
- esteve sobre ela, mas não viu seu esplendor. 

Só, com a morte do tempo, os pensamento que a choraram 
verão, junto ao universo, como foram infelizes, 
que, uma lágrima foi, naquela noite a vida inteira, 
- tudo quanto era dar, - a tudo que era o por. 


DIÁLOGO 

MINHAS palavras são a metade de um diálogo obscuro continuado através de séculos impossíveis. 

Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz. 

Nossas perguntas e respostas se reconhecem como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram. 

Conversamos dos dois extremos da noite, como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa... 

E um mar de estrêlas se balança entre o meu pensamento e o teu. Mas um mar sem viagens. 


EPIGRAMA N. 7 

A TUA RAÇA de aventura quis ter a terra, o céu, o mar. 

Na minha, há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar... 

A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar. 

A minha, não quer ir nem vir. A minha raça quer passar. 


                   MEDIDA DA SIGNIFICAÇÃO                              


PROCUREI-ME nesta água da minha memória que povoa tôdas as distâncias da vida e onde, como nos campos, se podia semear, talvez, tanta imagem capaz de ficar florindo... 

Procurei minha forma entre os aspectos das ondas, para sentir, na noite, o aroma da minha duração. 

Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta: desapareci como aquele — no entanto, árduo — ritmo que, sôbre fingidos caminhos, sustentou a minha passagem desejosa. 

Acabei-me como a luz fugitiva que queimou sua própria atitude segundo a tendência do meu pensamento transformável. 

Desde agora, saberei que sou sem rastros. Esta água da minha memória reüne os sulcos feridos: as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas. 

E aquilo que restaria eternamente é tão da côr destas águas, é tão do tamanho do tempo, é tão edificado de silêncios que, refletido aqui, permanece inefável.


 EPIGRAMA N. 9 

O vento voa, 
a noite toda se atordoa, 
a folha cai. 

Haverá mesmo algum pensamento 
sobre essa noite? sobre esse vento? 
sobre essa folha que se vai? 


NOTURNO 

SUSPIRO do vento, lágrima do mar, êste tormento ainda pode acabar? 

De dia e de noite, meu sonho combate: veem sombras, vão sombras, não há quem o mate! 

Suspiro do vento, lágrima do mar, as armas que invento são aromas no ar! 

Mandai-me soldados de estirpe mais forte, com tôdas as armas que levam à morte! 

Suspiro do vento, lágrima do mar, meu pensamento não sabe matar! 

Mandai-me êsse arcanjo de verde cavalo, que desça a êste campo a desbaratá-lo! 

Suspiro do vento, lágrima do mar, que leve êsse arcanjo meu longo tormento, e também a mim, para o acompanhar! 


MARCHA  

 As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.


ASSOVIO 

Ninguém abra a sua porta 
para ver que aconteceu: 
saímos de braço dado, 
a noite escura mais eu. 

Ela não sabe o meu rumo, 
eu não lhe pergunto o seu: 
não posso perder mais nada, 
se o que houve já se perdeu. 

Vou pelo braço da noite, 
levando tudo que é meu: 
— a dor que os homens me deram, 
e a canção que Deus me deu.


TENTATIVA 

ANDEI pelo mundo no meio dos homens: 
uns compravam joias, uns compravam pão. 
Não houve mercado nem mercadoria 
que seduzisse a minha vaga mão. 

Calado, Calado, me diga, 
Calado por onde se encontra minha sedução. 

Alguns, sorririam, muitos, soluçaram, 
uns, porque tiveram, outros, porque não. 
Calado, Calado, eu, que não quis nada, 
porque ando com pena no meu coração? 

Se não vou ser santa, Calado, Calado, 
os sonhos de todos porque não me dão? 

Calado, Calado, perderam meus dias? 
ou gastei-os todos, só por distração? 
Não sou dos que levam: sou coisa levada... 
E nem sei daqueles que me levarão... 

Calado, me diga si devo ir-me embora, 
para que outro mundo e em que embarcação! 


 EPIGRAMA N. 11 

A VENTANIA misteriosa 
passou na árvore côr de rosa 
e sacudiu-a como um véu, 
um largo véu, na sua mão. 

Foram-se os pássaros para o céu. 
Mas as flôres ficaram no chão. 


 Timidez

Basta-me um pequeno gesto, 
feito de longe e de leve, 
para que venhas comigo 
e eu para sempre te leve. . . 

— mas só esse eu não farei. 

Uma palavra caída 
das montanhas dos instantes 
desmancha todos os mares 
e une as terras mais distantes.. 

— palavra que não direi. 

Para que tu me adivinhes, 
entre os ventos taciturnos, 
apago meus pensamentos, 
ponho vestidos noturnos, 

— que amargamente inventei. 

E, enquanto não me descobres, 
os mundos vão navegando 
nos ares certos do tempo, 
até não se sabe quando... 

— e um dia me acabarei. 


PERGUNTA 

ESTES MEUS tristes pensamentos vieram de estrêlas 
desfolhadas pela bôca brusca dos ventos? 

Nasceram das encruzilhadas, onde os espíritos defuntos 
põem no presente horas passadas? 

Originaram-se de assuntos pelo raciocínio dispersos, 
e depois na saüdade juntos? 

Subiram de mundos submersos em mares, 
túmulos ou almas, em música, em mármore, em versos? 

Caíriam das noites calmas, dos caminhos dos luares lisos, 
em que o sono abre mansas palmas? 

Proveem de fatos indecisos, acontecidos entre brumas, 
na era de extintos paraísos? 

Ou de algum cenário de espumas, onde as almas deslisam frias, 
sem aspirações mais nenhumas? 

Ou de ardentes e inúteis dias, 
com figuras alucinadas por desejos e covardias? 

Foram as estátuas paradas em roda da água do jardim...? 
Foram as luzes apagadas? 

Ou serão feitos só de mim, 
estes meus tristes pensamentos que boiam como peixes lentos 

num rio de tédio sem fim? 


RITMO 

O ritmo em que gemo  
doçuras e mágoas  
é um dourado remo  
por douradas águas.  

Tudo, quando passo,  
olha-me e suspira.  
- Será meu compasso  
que tanto os admira?  

1942 


EPITÁFIO DE NAVEGADORA   

A Gastón Figueira

Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;

e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,

ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;

essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa

em sua face iluminada,
dize: “Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,

mas seu nome, de barca e estrela,
foi: SERENA DESESPERADA”.


O REI DO MAR 

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.


MAR EM REDOR 

Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:  
musica perdida no meu pensamento,  
na espuma da vida, na areia das horas...   

Esqueceste a sombra do vento   
Por isso, ficaste e partiste,  
e há finos deltas de felicidade  
abrindo os braços num oceano triste.   

Soltei meus anéis nos aléns da saudade.  
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.  
Almas de todos os afogados  
chamam para diversos lados  
esta singular companheira.    


CANÇÃO DA MENINA ANTIGA 

Esta é a dos cabelos louros 
e da roupinha encarnada, 
que eu via alimentar pombos, 
sentadinha numa escada. 

Seus cabelos foram negros, 
seus vestidos de outras cores, 
e alimentou, noutros tempos, 
a corvos devoradores. 

Seu crânio está vazio, 
seus ossos sem vestimenta, 
– e a terra haverá sabido 
o que ela ainda alimenta. 

Talvez Deus veja em seus sonhos 
– ou talvez não veja nada – 
que essa é a dos cabelos louros 
e da roupinha encarnada. 

Que do alto degrau do dia 
às covas da noite, escuras, 
desperdiçou sua vida 
pelas outras criaturas... 


EPIGRAMA  

A SERVIÇO da Vida fui,  
a serviço da Vida vim;  

só meu sofrimento me instrui,  
quando me recordo de mim.  

(Mas toda mágoa se dilui:  
permanece a Vida sem fim.) 


MÚSICA  

Do LADO de oeste,  
do lado do mar,  
há rosas silvestres  
para respirar,  
e o chão se reveste  
de musgos de luar.  

Do lado de oeste 
do lado do mar,'  
há um suave cipreste  
para me embalar.  
Pássaros celestes  
me virão cantar.  

Coração sem mestre,  
sonho sem lugar,  
quem há que me empreste  
barco de embarcar?  

Do lado de oeste,  
do lado do mar,  
descerei com Vésper  
até me encantar;  
Quero estar inerte,  
sob a chuva e o luar.  

Tu, que me fizeste,  
me virás buscar,  
do lado de oeste,  
do lado do mar?  


CANÇÃO EXCÊNTRICA 

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


CANÇÃO QUASE INQUIETA 

De um lado, a eterna estrela,
e do outro a vaga incerta,

meu pé dançando pela
extremidade da espuma,
e meu cabelo por uma
planície de luz deserta.

Sempre assim:
de um lado, estandartes do vento...
- do outro, sepulcros fechados.
E eu me partindo, dentro de mim,
para estar no mesmo momento
de ambos os lados.

Se existe a tua Figura,
se és o Sentido do Mundo,
deixo-me, fujo por ti,
nunca mais quero ser minha!

(Mas, neste espelho, no fundo
desta fria luz marinha,
como dois baços peixes,
nadam meus olhos à minha procura...

Ando contigo - e sozinha.
Vivo longe - e acham-me aqui...)

Fazedor da minha vida,
não me deixes!
Entende a minha canção!
Tem pena do meu murmúrio,
reúne-me em tua mão!

Que eu sou gota de mercúrio,
dividida,
desmanchada pelo chão...


EPIGRAMA DO ESPELHO INFIEL  

A João de Castro Osório  

Entre o desenho do meu rosto  
e o seu reflexo,  
meu sonho agoniza, perplexo.  

Ah! pobres linhas do meu rosto,  
desmanchadas do lado oposto,  
e sem nexo!  

E a lágrima do seu desgosto  
sumida no espelho convexo!  


A DOCE CANÇÃO 

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade - e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o universo
de pólo a pólo contente.


 CANÇÃO DE ALTA NOITE 

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.


CANÇÃO MÍNIMA 

No mistério do sem-fim 
equilibra-se um planeta. 

E, no planeta, um jardim, 
e, no jardim, um canteiro; 

no canteiro uma violeta, 
e, sobre ela, o dia inteiro, 

entre o planeta e o sem-fim, 
a asa de uma borboleta.


DESPEDIDA  

ADEUS,  
que é tempo de marear!  

Por que procuram pelos olhos meus  
rastros de choro,  
direções de olhar?  

Quem fala em praias de cristal e de ouro,  
abrindo estrelas nos aléns do mar?  
Quem pensa num desembarcadouro?  
- Ê: hora, apenas, de marear.  

Quem chama o sol? Mas quem procura o vento?  
e âncora? e bússola? e rumo e lugar?  
Quem levanta do esquecimento  
esses fantasmas de perguntar?  

Lenço de adeuses, já perdi. . . Por onde?  
- na terra, andando, e só de tanto andar .. .  
Não faz mal. Que ninguém responde  
a um lenço movido no ar ...  

Perdi meu lenço e meu passaiporte,  
- senhas inúteis de ir e chegar.  

Quem lembra a fala da ausência  
num mundo sem correspondência?  

Viajante da sorte na barca da sorte,  
sem vida nem morte. . .  

Adeus,  
que é tempo de marear! 


CANÇÃO NAS AGUAS 
  
ACOSTUMEI minhas mãos  
a brincarem na água clara:  
por que ficarei contente?  
A onda passa docemente:  
seus desenhos - todos vãos.  
Nada pára.  

Acostumei minhas mãos  
a brincarem na água turva:  
e por que ficarei triste?  
Curva, e sombra, sombra e curva,  
cor e movimento - vãos.  
Na existe.  

Gastei meus olhos mirando vidas  
com saudade.  
Minhas mãos por águas perdidas 
foram pura inutilidade.  


SOLILÓQUIO DO NOVO OTELO


Tudo VAI e vem.  
Sou como todas as coisas:  
e durmo e acordo na tua cabeça,  
com o andar do dia e da noite, 
o abrir e o fechar das portas.  
Tudo é monótono, tudo é para ser esquecido.  
Quero ficar em ti, único.  

No tumulto dos acontecimentos,  
pensarás: "Ele, porém, é imóvel".  
"Ele, ele é diferente" - pensarás, no meio das repetições.  

Tudo rodará e cairá,  
pelas vertentes desse teu imaginar,  
que sobe sempre.  

Pois eu quero estar parado e sem nenhuma alteração,  
sem te responder nem chamar, sem te dar nem pedir.  
Sem relação com as outras coisas.  

Eu, puramente eu.  
E assim talvez te inquietes.  
Talvez fiques mais próxima,   
e indagues, e te comovas, e até sofras 
e te esqueças de todo o resto  
e te gastes por mim.  

Caia o sono dos teus olhos,  
junto com lágrimas, 
e a cor que os iluminava,  
com a chama incauta da tua alegria.  

Caia o riso da tua boca,  
misturado às palavras que os outros ouviriam.  
E o brilho dos teus cabelos se a pague,  
com o pensamento que sempre te aureolou.  

Tudo assim!  

Que até teu coração se desprenda,  
- rosa cortada! – 
e caia em mim, para sempre.  

Que importa ficar no fundo do inferno,  
perdido, perdido, perdido,  
se teu coração arder comigo  
e se acabar com o meu fim? 


CANÇÃO A CAMINHO DO CÉU 

Foram montanhas? foram mares? 
foram os números...? - não sei. 
Por muitas coisas singulares, 
não te encontrei   

E te esperava, e te chamava, 
e entre os caminhos me perdi. 
Foi nuvem negra? maré brava? 
E era por ti!   

As mãos que trago, as mãos são estas. 
Elas sozinhas te dirão 
se vem de mortes ou de festas 
meu coração.   

Tal como sou, não te convido 
a ires para onde eu for.   

Tudo que tenho é haver sofrido 



pelo meu sonho, alto e perdido, 
- e o encantamento arrependido 
do meu amor.   


CANÇÃO DO CARREIRO   

Dia claro,  
vento sereno,  
roda, meu carro,  
que o mundo é pequeno.   

Quem veio para esta vida,  
tem de ir sempre de aventura:  
uma vez para alegria,  
três vezes para a amargura.   

Dia claro,  
vento marinho, 
roda, meu carro,  
que é curto o caminho.   

Riquezas levo comigo.  
impossível escondê-las:  
beijei meu corpo nos rios,  
dormi coberto de estrelas.   

Dia claro,  
vento do monte,  
roda, meu carro,  
que é perto o horizonte.   

Na verdade, o chão tem pedras.  
mas o tempo vence tudo.  
Com águas e vento quebra-as  
em areias de veludo...  

Dia claro,  
vento parado, 
roda, meu carro, 
para qualquer lado.  

Riquezas comigo levo.  
Impossível encobri-las:  
troquei conversas com o eco  
e amei nuvens intranqüilas.   

Dia claro,  
de onde e de quando?  
Roda, meu carro,  
pois vamos rodando ... 


INTERLÚDIO 

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales, 
Não me expliques o presente, 
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente, 
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.


CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO 

Caminho do campo verde, 
estrada depois de estrada. 
Cercas de flores, palmeiras, 
serra azul, água calada. 
  
(Eu ando sozinha 
no meio do vale. 
Mas a tarde é minha.) 
  
Meus pés vão pisando a terra 
que é a imagem da minha vida: 
tão vazia, mas tão bela, 
tão certa, mas tão perdida! 
  
(Eu ando sozinha 
por cima de pedras. 
Mas a flor é minha.) 
  

Os meus passos no caminho 
são como os passos da lua: 
vou chegando, vais fugindo 
minha alma é a sombra da tua. 
  
(Eu ando sozinha 
por dentro de bosques. 
Mas a fonte é minha.) 
  
De tanto olhar para longe, 
não vejo o que passa perto. 
Subo monte, desço monte, 
meu peito é puro deserto. 
  
(Eu ando sozinha, 
ao longo da noite. 
Mas a estrela é minha.) 


CONFISSÃO  

Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas depois ficou errado.
Nem longe nem perto
se encontra o culpado!)

De tanto querer ser boa,
misturei o céu com a terra,
e por uma coisa à-toa
levei meus anjos à guerra.
Aos mudos de nascimento
fui perguntar minha sorte.
E dei minha vida, momento a momento,
por coisas da morte.

Pus caleidoscópio de estrêlas,
entre cegos de ambas as vistas.
Geometrias imprevistas,
quem se inclinou para vê-las?

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas evadiu-se o culpado.
Deixo meu coração – aberto,
à porta do céu – fechado.)


EXPLICAÇÃO 

O pensamento é triste; o amor, insuficiente; 
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres. 
Deixo que a terra me sustente: 
guardo o resto para mais tarde. 

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece. 
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha. 
A estrela sobe, a estrela desce... 
- espero a minha própria vinda. 

(Navego pela memória sem margens. 
Alguém conta a minha história 
E alguém mata os personagens.) 


REINVENÇÃO 

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, 
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada, 
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva, 
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida, 
a vida só é possível 
reinventada.


LUA ADVERSA 

Tenho fases, como a lua,  
Fases de andar escondida,  
fases de vir para a rua...  

Perdição da minha vida!  
Perdição da vida minha!  
Tenho fases de ser tua,  
tenho outras de ser sozinha.  

Fases que vão e que vêm,  
no secreto calendário  
que um astrólogo arbitrário  
inventou para meu uso.  

E roda a melancolia  
seu interminável fuso!  

Não me encontro com ninguém  
(tenho fases, como a lua...).  

No dia de alguém ser meu  
não é dia de eu ser sua... 

E, quando chega esse dia,  
o outro desapareceu...  


MONÓLOGO 

Para onde vão minhas palavras,  se já não me escutas?  
Para onde iriam, quando me escutavas?  
E quando me escutastes? 
- Nunca.  

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!  
Eu e tu perdemos tudo.  
Suplicávamos o infinito.  
Só nos deram o mundo.  

De um lado das águas, de um lado da morte,  
tua sede brilhou nas águas escuras.  
E hoje, que barca te socorre?  
Que deus te abraça? Com que deus lutas?  

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,  
com minhas perguntas.  
Para quê? Para quê? 
Rodas tontas,  em campos de areias longas  
e de nuvens muitas.  


PANORAMA  

Em cima, é a lua, 
no meio, é a nuvem, 
embaixo, é o mar. 
Sem asa nenhuma, 
sem veda vela nenhuma, 
para me salvar. 

Ao longe, são noites, de perto, 
são noites, quem se há de chamar? 
Já dormiram todos, não acordam outros... 
Água. Vento. Luar. 

O trilho da terra para onde é que leva, luz do meu olhar? 
Que abismos aéreos de reinos aéreos para visitar! 

Na beira do mundo, 
do sono do mundo me quero livrar. 
E em cima – é a lua, no meio 
– é a nuvem, e embaixo 
– é o mar!  


ITINERÁRIO 

Primeiro, foram os verdes  e águas e pedras da tarde,  
e meus sonhos de perder-te  e meus sonhos de encontrar-te...  

Mas depois houve caminhos  pelas florestas lunares,  
e, mortos em meus ouvidos,  mares brancos de palavras.  

Achei lugares serenos  e aromas de fonte extinta.  
Raízes fora do tempo,  com flores vivas ainda.  

E eram flores encarnadas,  por cima das folhas verdes.  
(Entre os espinhos de prata,  só meus sonhos de perder-te...)  


CANTIGUINHA 

Brota esta lagrima e cai.  
Vêm de mim, mas não é minha.  
Percebe-se que caminha,  sem que se saiba aonde vai.  

Parece angustia espremida  de meu negro coração  
- pelos meus olhos fugida  e quebrada em minha mão.  

Mas é rio, mais profundo,  
sem nascimento e sem fim,  
que, atravessando este mundo,  
passou por dentro de mim. 


 RIMANCE  

POR QUE ME DESTES um corpo,  
se estava tão descansada,  
nisso que é talvez o Todo,  
mas parece tanto o Nada?  

Desde então andei perdida,  
pois meu -corpo não bastava,  
- meu corpo não me servia  
senão para ser escrava...  

De longe vinham guerreiros,  
de longe vinham soldados.  
Eu, com muitos ferimentos  
e os meus dois braços atados...  

Uma lágrima floria  no meio da sanha brava.  
Era a voz da minha vida  que de longe ,vos chamava.   
Que chamava e que dizia:  
"Levai-me destas estradas,  
que ando perdida e sozinha,  
com as mãos ,inutilizadas!'  

Deixai-me estar onde quero,  
no vosso doce regaço,  
com o vosso coração perto  do meu, 
no mesmo compasso,  

enquanto andam as estrelas  na curva dos seus bailados, 
e ao longe nuvens e ventos  galopam, enamorados,
e o mar e a terra sombrios  sofrem no silente espaço, 
porque os humanos suspiros  não vêm ao vosso regaço!"  

Estas coisas vos dizia.  
Estas coisas vos rogava.  
Mas neste corpo prendida  
minha alma continuava...  


DESPEDIDA  

Por mim, e por vós, e por mais aquilo  que está onde as outras coisas nunca estão,  deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:  quero solidão.  

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.  E como o conheces? – me perguntarão.  -Por não ter palavras, por não ter imagens.  Nenhum inimigo e nenhum irmão.  

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.  Viajo sozinha com o meu coração.  Não ando perdida, mas desencontrada.  Levo o meu rumo na minha mão.  

A memória voou da minha fronte.  Voou meu amor, minha imaginação...  Talvez eu morra antes do horizonte.  Memória, amor e o resto onde estarão?  


AMÉM  

Hoje acabou-se-me a palavra,  
e nenhuma lágrima vem.  
Ai, se a vida se me acabara  também!  

A profusão do mundo, imensa,  
tem tudo, tudo 
– e nada tem.  
Onde repousar a cabeça?  No além?  

Fala-se com os homens, 
com os santos,  consigo, com Deus...
E ninguém  entende o que se está contando  e a quem... 

Mas terra e sol, luas e estrelas  giram de tal maneira bem  
que a alma desanima de queixas.  Amém. 


NARRATIVA  

ANDEI BUSCANDO esse dia  
pelos humildes caminhos  
onde se escondem as coisas  
que trazem felicidade:  
os amuletos dos grilos e o trevos de quatro folhas ...  
Só achei flor de saudade.  

O arroio levava o tempo.  
Ia meu sonho atrás da água.  
No chão dormiam abertas  
minhas duas mãos sem nada.  
Se me chamavam de longe,  
se me chamavam de perto,  
era perdida, a chamada ...  

Viajei pelas estrelas  
dentro da rosa-dos-ventos.  
Trouxe prata em meus cabelos, 
pólen da noite sombria ...  

Mirei no meu coração,  
vi os outros, vi meu sonho,  
encontrei o que queria.  

Já não mais desejo andanças;  
tenho meu campo sereno,  
com aquela felicidade  
que em toda parte buscava.  
O tempo fez-me paciente.  
A lua, triste mas doce.  
O mar, profunda, erma e brava. 

Deixo aqui meu corpo, 
entre o sol e a terra.  
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!  
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 
  
Quero solidão. 

Em Viagem Vaga Música


Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras   

Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras,  
pelas salas sem luz, por varandas e escadas  
nossos passos estão desaparecidos.   

Diálogos foram frágeis nuvens transitórias.  
Multidões correm como rios entre areias  
inexoráveis, esvaindo-se em distância.   

Meus olhos vagos, que já viram tanta morte,  
firmam-se aqui: voragens, quedas e mudanças  
tornam-me em lágrima. Oh derrotas! oh naufrágios...   

A solidão tem duras leis: conhece aquela  
insuficiência de comandos e poderes.  
Sabe da angústia de limites e fronteiras.   
Entre mãos tristes, vê-se a harpa imóvel


Quero uma solidão, quero um silêncio   

Quero uma solidão, quero um silêncio,  
uma noite de abismo e a alma inconsútil,  
para esquecer que vivo - libertar-me   

das paredes, de tudo que aprisiona;  
atravessar demoras, vencer tempos  
pululantes de enredos e tropeços,   

quebrar limites, extinguir murmúrios,  
deixar cair as frívolas colunas  
de alegorias vagamente erguidas.   

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,  
e estar vendo e sonhando à tua sombra  
a existência do amor ressuscitada.   
  
Falar contigo pelo deserto.         


           Falar contigo. Andar lentamente falando 

Falar contigo. Andar lentamente falando 
com as palavras do sono 
(as da infância, as da morte). 
Dizer com claridade o que existe em segredo. 

Ir falando contigo, e não ver mundo ou gente. 
E nem sequer te ver - mas ver eterno o instante. 
No mar da vida ser coral de pensamento. 

Felicidade? Não. Voz solene. 
Entre nuvens, seta sempre constante à direção remota: 
Nascimento? Vontade? Intenção? Cativeiro? 

Humildade de amar só por amar. 
Sem prêmio que não seja o de dar cada dia o seu dia breve, 
talvez: límpido, às vezes: sempre isento. 

Ir dando a vida até morrer. 


Caminho pelo acaso dos meus muros   

Caminho pelo acaso dos meus muros,  
buscando a explicação de meus segredos.  
E apenas vejo mãos de brando aceno,   

olhos com jaspes frágeis de distância,  
lábios em que a palavra se interrompe;  
medusas da alta noite e espumas breves.   

Uma parábola invisível sabe  
o rumo sossegado e vitorioso  
em que minha alma, tão desconhecida,   

vai ficando sem mim, livre em delícia,  
como um vento que os ares não fabricam.  
Solidão, solidão e amor completo.   

Êxtase longo de ilusão nenhuma.         


Eu sou essa pessoa a quem o vento chama....   

Eu sou essa pessoa, a quem o vento chama,  
a que não se recusa a esse final convite,  
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.   

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.  
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:  
iá de horizonte libertada, mas sozinha.   

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,  
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?  
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.   

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas  
vão as medidas que separam os abraços.  
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:   
  
"Agora és livre, se ainda recordas."                 


Sobre um passo de luz outro passo de sombra   

Sobre um passo de luz outro passo de sombra.  
Era belo não vir; ter chegado era belo.  
E ainda é belo sentir a formação da ausência.   

Nada foi projetado e tudo acontecido.  
Movo-me em solidão, presente sendo e alheia,  
com portas por abrir e a memória acordada.   

A acordada memória! esta planta crescente  
com mil imagens pela seiva resvalantes,  
na noite vegetal que é a mesma noite humana.   

Vejo-me longe e perto, em meus nítidos moldes,  
em tantas viagens, tantos rumos prisioneira,  
a construir o instante em que direi teu nome!   

Esse rosto na sombra, esse olhar na memória 

Esse rosto na sombra, esse olhar na memória, 
o tempo do silêncio, os braços da esperança, 
uma rosa indefesa —e esse vento inimigo. 

Ficou somente a luz do constante deserto, 
e o sobrenatural reino obscuro do vento, 
com seu povo indistinto a carpir noutro idioma. 

Idéias de saudade em tal paisagem morrem. 
Que arroio pode haver, de contínuos espelhos, 
a repetir o que é deixado? Por devota, 

solidária ternura e aceitação da angústia? 
—Ah, deixarei meu nome entre as antigas mortes. 
Só nessas mortes pode estar meu nome escrito. 

Nome: pequena lágrima atenta 


 Esses adeuses que caíam pelos mares 

Esses adeuses que caíam pelos mares,  
declamatórios, a pregar sua amargura,  
emudeceram: já não há tempos nem ecos.   

Perdeu-se a forma dos abraços. De ar é a lousa  
dos cemitérios: um suspiro momentâneo.  
De ar esses mortos – que eram de ar enquanto vivos.   

De ar, este mundo, esta presença, este momento,  
estes caminhos sem firmeza. Dos adeuses  
que vamos sendo – ó ramos de ossos, flor de cinzas!    

É que morremos – e num lúcido segredo –  
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências 
– que somos de ar, de adeuses de ar... E tão de adeuses   
Que já nem temos mais despedidas          

Em Solombra


Reparei que a poeira se misturava às nuvens 

Reparei que a poeira se misturava às nuvens,
e, sem pôr o ouvido na terra,
senti a pressa dos que chegavam.
Disse-me de repente: "Eis que o tropel avança".
Mas todos me olhavam como surdos,
e deixavam-me sem responder nada.
Vi as nuvens tornarem-se vermelhas
e repeti: "Eis que os incêndios se aproximam".
(Mas não havia mais interlocutores.)
"Eles vêm, eles não podem deixar de vir",
balbuciei para a solidão, para o ermo.
E já por detrás dos montes subiam chamas altas;
ou eram estandartes ou eram labaredas.
Perguntei: "Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma".
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
"Death"
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida inteira
essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.


Em algum lugar me encontro deitada   

Em algum lugar me encontro deitada  
com longos vestidos graves,  
como um quadro, tênue de cor, muito sereno.   

E reconheço-me.   

Não há paisagem nenhuma, apenas um vazio imenso,  
a luz de um crepúsculo imóvel,  
uma grandiosa quietude.   

Em algum lugar me encontro assim deitada,  
sem brisa que me altere, presença que me perturbe.  
Do céu à terra, de leste a oeste, tudo é muito longe,  
infinitamente,  
num lugar de nenhum país.   
  
Horizontes de esquecimento circundam a imagem,  
a imagem minha que parece venturosa,  

que descansa em nobre solidão,  
que talvez esteja sonhando  
sonhos que jamais conhecerei,  
mas que dão a seus olhos fechados  
uma plácida curva.   

Reconheço-me e ignoro-me.  
(Uma noite dentro de outra noite.)  

1958          


Abracemos a noite   

Abracemos a noite  
que chega do abismo  
instruída calada.   

Em seu peito de treva  
descansemos a alma  
tão inesperada.   

Comtemplemos a noite,  
vestida de sombra,  
de tempo adornada.   

Tão maternal e estranha  
tão simples e tão deusa   
fácil e inviolada,   
  
que a varanda remota   
de um negro horizonte  
prolonga, admirada.   

Abracemos a noite  
que tece e destece   
a frágil escada   

dos vagos trapezistas   
soltos como flores   
na vida sonhada.          


Sonho com o cocheiro fúnebre   

Outro dia sonhei que o cocheiro fúnebre  
vinha me buscar-me e eu não me achava preparada:  
não estava nem morta nem doente,   

e sentia que tinha de partir.   

Então disse para o cocheiro:  
' Espere um pouquinho, ‘  
que estou acabando de ler este livro.   

E o cocheiro concordou e esperou.  
Deve estar esperando.    

  
SAIS PELO SONHO COMO DE UM CASULO E VOAS   

Sais pelo sonho como de um casulo e voas.   

Com tal leveza podes percorrer o mapa  
e ir e vir ao acaso, ar e nome:  
como as borboletas.   

Não és tu, mas a tua memória com asas.  
  
E abrem-se os palácios,  
e percorres os tesouros guardados,  
e és sorriso e silêncio  
e já nem precisas mais de asas.   

Na noite encontras o dia, claro e durável  
Voas sobre séculos e horóscopos  
Ouves dizer que te amam  
como ninguém jamais o poderia confessar.   

Não tens idade nem tribo,  
nem rosto nem profissão.  
Podes fazer o que quiseres com palavras, harpas, almas.   

E quando voltas ao teu casulo  
já não tens medo nenhum da morte.  
E em teu pensamento há néctar e pólen. 


Com agulhas de prata   

Com agulhas de prata  
de brilho tão fino  
bordai as sedas do vosso destino.   

Bordai as tristezas  
de todos os dias  
e repentinamente as alegrias.   

Que fiquem as sedas  
muito primorosas  
mesmo com lagrimas presas nas rosas.   

Com agulhas de prata  
de brilho tão frio...  
ai, bordai as sedas, sem partir o fio!
  
1961  


Uma noite me balancei no céu   

Uma noite me balancei no céu.  
O balanço era de flores ou de estrelas,  
e suas pontas perdiam-se no Norte e no Sul,  
e atiravam-me de Leste a Oeste.   

Desci do sonho melancólica.  
Às vezes suspiro por esse alto sonho.  
Contá-lo não é nada: mas vivê-lo:  
mas estar longe, numa solidão deleitosa,  
mas crer, afinal, que há um tempo de viver...   


Sonhei um sonho

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho.

1959


Trinta anos no vale de exílios da sombra   

Trinta anos no vale de exílios da sombra,  
tua voz se eleva cintilante, responde-me  
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.   

Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:  
os ouvidos que nem estão no meu corpo  
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.   

Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!  
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo  
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.   

E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –  
e de muito longe vejo a chave que me atiras,  
 e que receberei como álibi do sobrenatural.   

Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,  
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,  
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,  
numa atmosfera absurda –  
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos. 

Abril, 4, 1963      

Em Sonhos


Sobre as muralhas do mar 

Sobre as muralhas do mar 
conversaremos. 

Sobre as muralhas do mar, entre areias, 
espumas, colunas, 
o que passa e o que perdura. 
Conversaremos. 
Conversaremos de um tempo 
que imaginamos. 
Que não houve: azuis e verdes 
caminhos, destinos, glórias. 

Conversaremos. 

Os muros do mar são altos. 
E esquecemos. 

E as perguntas ficam intactas, 
não mudadas em respostas. 

Como é o som das palavras sobre as ondas? 
E um riso de asas, de brisas 
de uma alegria selvagem escutaremos. 
No longínquo mar das almas. 

Não conversaremos. 


O fluxo de consciência 

Chapéus , carteiras, 
Luvas e peles 
Pelas vitrines 
Dos corredores. 
Sonhei com ursos 
Milionários, 
Vendendo o corpo 
Para as indústrias; 
Ursos casados 
Com grandes lontras, 
Proliferando 
Mantos, chapéus... 
E os meus vizinhos 
A noite inteira 
Riam-se, tontos, 
Acompanhados 

Do som dos copos 
Contra as bandejas... 
Tudo dormindo 
Menos o bar 
Onde o homem último 
Extingue a fome 
E o homem penúltimo 
Dá de comer 


Rua dos rostos perdidos 

Este vento não leva apenas os chapéus, 
estas plumas, estas sedas: 
este vento leva todos os rostos, 
muito mais depressa. 

Nossas vozes já estão longe, 
e como se pode conversar, 
como podem conversar estes passantes 
decapitados pelo vento? 

Não, não podemos segurar o nosso rosto: 
as mãos encontram o ar, 
a sucessão das datas, 
a sombra das fugas, impalpável. 

Quando voltares por aqui, 
saberás que teus olhos 
não se fundiram em lagrimas, não, 
mas em tempo. 

De muito longe avisto a nossa passagem 
nesta rua, nesta tarde, neste outono, 
nesta cidade, neste mundo, neste dia. 
(Não leias o nome da rua, - não leias!) 

Conta as tuas historias de amor 
como quem estivesse gravando, 
vagaroso, um fiel diamante. 
E tudo fosse eterno e imóvel. 

Em Poemas de viagens


Prazo de Vida 

No meio do mundo faz frio, 
 faz frio no meio do mundo,  
muito frio.  

Mandei armar o meu navio.  
Volveremos ao mar profundo,  
meu navio!  

No meio das águas faz frio.  
Faz frio no meio das águas,  muito frio.  

Marinheiro serei sombrio,  
por minha provisão de mágoas.  
Tão sombrio!  

No meio da vida faz frio,  
faz frio no meio da vida.  
Muito frio.  

O universo ficou vazio,  
porque a mão do amor foi partida  no vazio. 


Auto-retrato 

Se me contemplo, 
tantas me vejo, 
que não entendo 
quem sou, no tempo 
do pensamento. 

Vou desprendendo 
elos que tenho, 
alças, enredos... 
E é tudo imenso... 

Formas, desenho 
que tive e esqueço! 
Falas, desejo 
e movimento 
- a que tremendo, 
vago segredo  
ides, sem medo?! 

Sombras conheço: 
não lhes ordeno. 
Como precedo 
meu sonho inteiro, 
e após me perco, 
sem mais governo?! 

Nem me lamento 
nem esmoreço: 
no meu silêncio 
há esforço e gênio 
e suave exemplo 
de mais silêncio. 

Não permaneço. 
Cada momento  
é meu e alheio. 
Meu sangue deixo, 
breve e surpreso, 
em cada veio 
Semeado e isento. 
Meu campo, afeito 
à mão do vento, 
é alto e sereno: 
amor, desprezo. 

Assim compreendo 
o meu perfeito 
acabamento. 

Múltipla, venço 
este tormento 
do mundo eterno 
que em mim carrego: 
e, una, contemplo 
o jogo inquieto 
em que padeço. 

E recupero 
o meu alento 
e assim vou sendo. 

Ah, como dentro 
de um prisioneiro 
há espaço e jeito 
para esse apego 
a um deus supremo, 
e o acerbo intento 
do seu concerto 
com a morte, o erro... 

(Voltas do tempo 
- sabido e aceito – 
do seu desterro...)  


Sugestão 

Sede assim — qualquer coisa  serena, 
isenta, fiel.  

Flor que se cumpre,  
sem pergunta.  

Onda que se esforça,  
por exercício desinteressado.  

Lua que envolve igualmente  os noivos 
abraçados  e os soldados já frios.  

Também como este ar da noite:  sussurrante de silêncios,  
cheio de nascimentos e pétalas.  

Igual à pedra detida,  sustentando seu demorado destino.  
E à nuvem, leve e bela,  vivendo de nunca chegar a ser.   

À cigarra, queimando-se em música,  
ao camelo que mastiga sua longa solidão,  
ao pássaro que procura o fim do mundo,  
ao boi que vai com inocência para a morte.  

Sede assim qualquer coisa  serena, isenta, fiel.  
 Não como o resto dos homens.  


Desejo de regresso    

Deixai-me nascer de novo,  
nunca mais em terra estranha,  
mas no meio do meu povo,  
com meu céu, minha montanha,  
meu mar e minha família.   

E que na minha memória  
fique esta vida bem viva,  
para contar minha história  
de mendiga e de cativa  
e meus suspiros de exílio.  

Porque há doçura e beleza  
na amargura atravessada,  
e eu quero memória acesa  
depois da angústia apagada.  
  
Com que afeição me remiro!   
Marinheiro de regresso  
com seu barco posto a fundo,  
ás vezes quase me esqueço  
que foi verdade este mundo.  
(Ou talvez fosse mentira...) 


Distância  

Quem sou eu, a que está nesta varanda, 
em frente deste mar, sob as estrelas, 
vendo vultos andarem? 

Sabem, acaso, os vultos, quem vão sendo? 
Sentem o céu, as águas, quando passam? 
Ou não vêem, ou não lembram? 

Como alguém deste mundo para a lua dirige os olhos, 
meditando coisas e assim no vago mira. 

- Para este mundo vão meus pensamentos, 
tão estrangeiros, tão desapegados, 
como se esta varanda fosse a lua. 


Canção   

Quero um dia para chorar.  
Mas a vida vai tão depressa!  
- e é preciso deixar contida  
a tristeza, para que a vida,  
que acaba quando mal começa,  
tenha tempo de se acabar.   

Não quero amor, não quero amar...  
Não quero promessa  
nem mesmo pra ser cumprida.  
Não quero esperança partida,  
nem nada de quanto regressa.  
Quero um dia pra chorar.   

Quero um dia para chorar.  
Dia de desprender-me dessa  
aventura mal-entendida  
sobre os espelhos sem saída  
em que jaz minha face impressa.  
 Chorar sem protesto. Chorar.


SUAVE MORTA 

À suave morta, que dizem os figurinos abertos 
e seu espelho e seu perfume e seus anéis? 

(Olhos fechados. Narina imóvel.) 

Que podem dizer os poetas? E agora os santos que lhe importam? 
E os amigos? Por onde os rostos verdadeiros, e os infiéis? 

(Olhos fechados. Memória dormida.) 

Aqueles que inutilmente amou, estão longe ou perto? 
Não sabe, não se lembra, não se interessa, já não tem 
necessidade de querer, de ser querida: no seu mundo 
ela é tudo, ela é todas, multiplicada do ninguém.  

(Olhos fechados. Coração quieto.) 

A suave morta é areia onde a asa nenhuma bate sombra. 
Areia cega às nuvens e às estrelas. Tão perdida ... 

Digam-lhe o que quiserem. Chorem. Amem-na. É agora ausente 
por completo, como aprendeu, dia a dia, na vida. 

(Olhos fechados: e instruída.) 


BEIRA MAR   

Sou morador das areias  
De altas espumas  
Os navios passam pelas minhas janelas  
Como o sangue nas minhas veias  
Como os peixinhos nos rios,   

Não tem velas, e tem velas  
E o mar tem e não tem sereias  
E eu navego, e estou parada  
Vejo mundos e estou cega,   

Porque isto é mal de família  
Ser de areia, de mar, de ilhas  
E até sem barco navega  
Quem para o mar foi fadada,   
  
Deus te proteja Cecília  
Que tudo é mar e mais nada. 


DOCE CANTAR 

Tão liso está meu coração, 
tão lisos, meus pensamentos, 
que as lágrimas rolarão, 
e os contentamentos. 

Folhas verdes e encarnadas 
tão lisas nunca serão 
nem orvalhadas. 

Nunca serão as espadas 
lisas como meu coração, 
mas grossas e enferrujadas. 

E os meus pensamentos 
nunca se compararão 
nem luzes nem ventos. 

Que as imagens e os momentos 
rugas sempre são.  


Realização da Vida  

Não me peças que cante, pois ando longe, 
pois ando agora muito esquecida. 

Vou mirando no bosque o arroio claro 
e a provisória flor escondida. 

E procuro minha alma e o corpo, 
mesmo, e a voz outrora em mim sentida. 

E me vejo somente pequena sombra sem tempo e nome, 
nisto perdida 

- nisto que se buscara pelas estrelas, 
com febre e lágrimas, e que era a vida. 


Desapego  

A vida vai depressa e devagar. 
Mas a todo momento 
penso que vai acabar. 

Porque o bem da vida seria ter 
mesmo no sofrimento 
gosto de prazer. 

Já nem tenho vontade de falar 
senão com árvores, vento, 
estrelas, e águas do mar. 

E isso pela certeza de saber 
que nem ouvem meu lamento 
nem podem responder.  


Balada do Soldado Batista 

Era das águas, vinha das águas: 
trazia sua sorte escrita 
na palma das mãos o soldado Batista. 

Nos primeiros dias de sangue 
uma velhinha chorava aflita 
soletrando o seu nome na lista. 

Era das águas, vinha das águas. 
Um velhinho disse: "Permita 
Deus que acabe a guerra!" 

Na crista dos mares já dançava o navio, 
e o moço, por ser fatalista 
sorri para a onda que o solicita 

Era das águas, vinha das águas: 
fora batizado Batista. 
A velhinha chora. O Velhinho medita 

Não vem carta? onde está, que não manda uma letra? 
Que demora tão esquisita! 
Perto do mar. Longe da vista 

Era das águas, vinha das águas. 
O primeiro torpedo atinge e precipita 
o primeiro navio: o do soldado Batista 

O velhinho reflete: " Oxalá não tenha 
ido para longe... para a África... e assista 
horrores..." E a velhinha responde, contrita: 

"Era das águas, vinha das águas, 
que Deus o proteja, e a Virgem bendita, 
e seu padrinho, João Batista..." 

Ambos se afligem.( quem sabe, nas águas...?) 
Mas não dizem nada. Nenhum acredita 
e receia também que o outro não resista... 

Era das águas, vinha das águas. 
Fora-se nas águas, na data prevista 
pela curva da vida, em ambas as mãos inscritas. 

Nas cadeiras de vime, os velhinhos sentados 
perguntam a quem chega: "Quanto dista 
a África do Brasil? Que distância infinita!" 

Era das águas, vinha das águas, foi-se nas águas... 
Os jornais trazem, o rádio já grita: 
só eles não sabem! - Morreu no mar o Soldado Batista. 

Só eles não sabem! Não saberão por muito tempo... 
O amor preserva. O amor ressuscita. 

Enquanto não souberem, sonharão que ainda exista 
em algum lugar seu filho, o soldado Batista. 


INTERPRETAÇÃO    

As palavras aí estão, uma por uma:  
porém minha alma sabe mais.   

De muito inverossímil se perfuma  
o lábio fatigado de ais.   

Falai! que estou distante e distraída,  
com meu tédio sem voz.   

Falai! meu mundo é feito de outra vida.  
Talvez nós não sejamos nós.  


 O CONVALESCENTE 

O convalescente, diante do espelho, 
examina seu branco rosto esmaecido. 
Vago lias, o lábio vermelho. 
marfins ... Lírios ... E o quarto, um búsio em seu ouvido. 

Diante do espelho, o convalescente 
mira o peito pálido e frio, 
com os ossos paralelamente ... 
E pensa no antigo feitio 

de seus braços, de seu pescoço, 
e na direção pressurosa 
de seu olhar, que era tão vivido, tão moço, 
quando ele todo era mármore e rosa! 

E agora é débil, frouxo; e seu passo, que hesita 
diante do espelho, sente seu rumo longe e estranho. 
Entre os imóveis, a sua força é tímida. Levita 
como um pássaro tonto sobre um ondulante rebanho. 

Desenrolam-se terra e céu nessa memória 
de homem. O antigo é de hoje, o que vem não faz falta. 
Tão perto andou do fim que sua vida é história 
sem elos. O resto mal o sobressalta. 

E pára, a olhar, a ouvir, de súbito presente, 
vindo outra vez, ele tão solto, ele tão ido ... 
Casas. Pessoas. Fatos ... 
– Este mundo! 
– O convalescente 
regressa triste como um cadáver arrependido. 


Surpresa  

Trago os cabelos crespos de vento e o cheiro das rosas nos meus vestidos. 
O céu instala no meu pensamento aos seus altos azuis estremecidos. 

Águas borbulhantes, árvores tranqüilas vão adormentando meus tempos chorados. 
E a tarde oferece às minhas pupilas nuvens de flores por todos os lados. 
Ó verdes sombras, claridades verdes, 

que esmeraldas sensíveis hei nutrido, 
para sobre o meu coração verterdes mirra de primaveras e de olvidos? 
Ó céus, ó terra que de tal maneira 

ardente e amarga tenho atravessado, 
por que agora pensais com tão fino cuidado vossa mansa,
calada, ferida prisioneira? 


 TRANSFORMAÇÕES   

Sobre o leito frio,   
sou folha tombada   
num sereno rio.   
Folha sou de um galho   
onde uma cigarra,   
nutrida de orvalho,   
rasgou sua vida   
em música – ao vento –   
desaparecida...    

Sobre o leito frio,   
sou folha e pertenço   
a um profundo rio.   
(Pela noite afora,   
vão virando sonho   
músicas de outrora...)   


NOTURNO   

Estrela fria   
da tua mão.  
Tênue, cristal,  
exígua flor.   

Ai! Neva amor.   

Lua deserta  
Do teu olhar.  
Puro, glacial  
Fogo sem cor!   

Ai! Neva amor.   

Imenso inverno  
de coração.  
Gelo sem fim   
a deslizar...   

Pus-me a cantar  
na solidão:   

Teu frio vem,  
do céu de mim,  
de ti, de quem?  
não há mais sol,  
verão, calor?   

Ai ! Neva amor.      


Inibição  

Vou cantar uma cantiga, 
Vou cantar – e me detenho: 
Porque sempre alguma coisa 
Minha voz está prendendo. 

Pergunto à secreta Música 
Por que falha o meu desejo, 
Por que a voz é proibida 
Ao gosto do meu intento. 

E em perguntar me resigno, 
Me submeto e me convenço. 
Será tardia, a cantiga? 
Ou ainda não será tempo... 


4º QUARTO MOTIVO DA ROSA 

Não te aflijas com a pétala que voa: 
também é ser, deixar de ser assim. 

Rosas verá, só de cinzas franzida, 
mortas, intactas pelo teu jardim. 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, 
o vento vai falando de mim.  

E por perder-me é que vão me lembrando, 
por desfolhar-me é que não tenho fim. 


Enterro de Isolina 

Não faz mal que a chuva caia! 
Aguentaremos a água nos olhos, 

Depois, cobriremos a cabeça com a saia! 
Não faz mal que no barro entremos! 

Quem tropeçar fica ajoelhado. 
De barro fomos feitos e seremos! 

Mas ninguém suje o caixão de Isolina! 
Levantem bem, que o caixão é leve 

Onde vai a virgem menina! 
Não faz mal que nos sujemos: 

Mas levantem os ramos de rosas 
E os de dálias e Crisântemos!

Andaremos léguas de estrada, 
Com léguas de chuva por cima.

Mas que Isolina não fique cansada! 
Esperou tanto pelo seu dia! 

Mas teve vestido de seda branca 
E manto igual ao da Virgem Maria. 

Tão bonitinha, Preta, preta! 
Que vai ser a alma dela, agora? 
Ou beija-flor ou borboleta…!” 


 CANTAR SAUDOSO   

Tangedoras de idades antigas,  
pelo tempo andadas,  
todo o campo é nado das vossas cantigas.   

Das vossas cantigas, todo o mar é nado,  
tangedoras idas!  
Pura eternidade foi vosso recado.  
Vozes deixastes derramadas  
em terras pelo tempo andadas,  
e ainda são floridas!   

Deixastes lágrimas vertidas  
nas águas, tangedoras idas!  
E ainda são salgadas...! 


SOBRIEDADE    

Perguntas seculares se levantavam do meu coração:  
última planta dos desertos, voz do Enigma...  
Ai de mim!   

Falei às ondas abundantes: "Dai-me o caminho  
embora cercado de pasmo e sombra  
por onde foi... - já não por onde veio! - Ulisses!"  
Ai de mim!   

Pois subiu dentre as águas um vento exíguo,  
menos que uma bandeira, que um pássaro, que um lenço...  
Passou pelas minhas mãos...Deixou-as... e eu sorri com delícia...  
Ai de mim!    
  
Que coisa tênue, a minha vida, que conversa apenas com o mar,  
e se contenta com um sopro sem promessa,  
que voa sem querer das ondas para as nuvens! 


Inscrição 

Sou entre flor e nuvem, 
Estrela e mar. 
Por que havemos de ser unicamente humanos, 
Limitados em chorar? 

Não encontro caminhos 
Fáceis de andar. 
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras 
Que não sabem de água e de ar. 

E por isso levito. 
É bom deixar 
Um pouco de ternura e encanto indiferente 
de herança, em cada lugar. 

Rastro de flor e estrela, 
Nuvem e mar. 
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido: 
A sombra é que vai devagar. 


VIOLA 

Minha cantiga servia 
para dizer coisas densas 
que apenas eu mesmo ouvia. 

Foi a palavra quebrada 
por muito encontro guerreiro: 
ferozes golpes de espada 
na tênue virtude alada 
de um coração prisioneiro. 

Cantar não adianta nada. 

Explicar-se não se explica. 

Por entre coisas imensas, 
torto e ignorado se fica. 

Com pensativos vagares, 
de fundos poços me abeiro: 
chorar é muito mais fácil 
e talvez mais verdadeiro. 


NOITE   

Tão perto!
Tão longe!
Por onde
é o deserto?
Às vezes,
responde,
de perto,
de longe.
Mas depois
se esconde.
Somos um
ou dois?
Às vezes,
nenhum.
E em seguida,
tantos!
Avida
transborda
por todos
os cantos.
Acorda
com modos
de puro
esplendor.
Procuro
meu rumo:
horizonte
escuro:
um muro
em redor.
em treva
me sumo.
Para onde 
me leva?

Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! - Sensitiva
tocada.

1945 


EVIDÊNCIA   

Nunca mais cantaremos  
Com o antigo vigor:  
o entusiasmo era inútil,  
e desnecessário, o amor.   

Nos rostos que mirávamos,  
derreteu nosso olhar  máscaras tão antigas  
que se espantavam de acabar.   

Nesse mundo que erguíamos,  
deixamos presa a nossa mão.  
E os companheiros, nestes muros?  
Quando os terminam, e onde estão?   

Puros e tristes ficamos,  puros e tristes e sós.  
O coração é vaga nuvem.  
E vaga areia, a voz .


Miraclara desposada 

Mãos de coral dentro da água,  
na tinta, entre o sol e o sal,  
Miraclara vai lavando  
o seu antigo enxoval.   

Miraclara, sal e sol,  
Miraclara, sol e sal,  canta e lava, 
lava e canta  com uma dourada garganta,  
defronte à minha janela. 


Acalanto 

Dorme que eu penso. 
Cada qual assim navega 
pelo seu mar imenso. 

Estarás vendo.Eu estou cega. 
Nem te vejo nem a mim. 
No teu mar, talvez se chega. 
Este, não tem fim. 

Dorme, que eu penso. 
Que eu penso nesse navio 
clarividente em que vais. 
Mensagens tristes lhe envio 
Pensamentos...- nada mais. 


Voz do Profeta exilado  

       A Haydée de Meunier

   Cansei-me de anunciar teu nome às multidões desatinadas; 
e, quando desdobrei teu rosto, 
responderam-me com pedradas. 

Deixei essas praias ferozes de areias e alucinação. 
 Fui no meu barco de perigo, de silêncio e de solidão. 
 Solucei nas rochas desertas, equilibrei-me na onda brava. 

Curvei de espanto a minha fronte: 
e com as águas do mar chorava. 

Chorei pelas gentes perdidas de loucura e orgulho. 
Depois, por minhas visões, por meus gestos. 
E, finalmente, por nós dois. 

Em que outros países, de que estranhos mundos,
alguém espera pela minha voz, 
salva de martírios, condutora da tua Estrela? 
  
Diante dos horizontes próximos, afligi-se o meu coração. 
 Não sei se é o tempo da chegada, ou sempre o da navegação. 


PISTÓIA - Cemitério Militar Brasileiro 

Eles vieram felizes, como 
para grande jogos atléticos: 
com um largo sorriso no rosto, 
com forte esperança no peito, 
- porque eram jovens e eram belos. 

Marte, porém, soprava fogo 
por estes campos e estes ares. 
E agora estão na calma terra, 
sob estas cruzes e estas flores, 
cercados por montanhas suaves. 

São como um grupo de meninos 
num dormitório sossegado, 
com lençóis de nuvens imensas, 
e um longo sono sem suspiros, 
de profundíssimo cansaço. 

Suas armas foram partidas 
ao mesmo tempo que seu corpo. 
E, se acaso sua alma existe, 
com melancolia recorda 
o entusiasmo de cada morto. 

Este cemitério tão puro 
é um dormitório de meninos: 
e as mães de muito longe chamam, 
entre as mil cortinas do tempo, 
cheias de lágrimas, seus filhos. 

Chamam por seus nomes, escritos 
nas placas destas cruzes brancas. 
Mas, com seus ouvidos quebrados, 
com seus lábios gastos de morte, 
que hão de responder estas crianças? 

E as mães esperam que ainda acordem, 
como foram, fortes e belos, 
depois deste rude exercício, 
desta metralha e deste sangue, 
destes falsos jogos atléticos. 

Entretanto, céu, terra, flores, 
é tudo horizontal silêncio. 
O que foi chaga, é seiva e aroma, 
- do que foi sonho, não se sabe - 
e a dor anda longe, no vento...

Em Mar Absoluto 


Os dias felizes   

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:  
viajam nas nuvens,  
correm nas águas, desmancham-se na areia.   

Todas as palavras são inúteis,  
desde que se olhe para o céu.   

A doçura maior da vida  
flui na luz do sol,  
quando se está em silêncio.   

Até os urubus são belos,  
no largo círculo dos dias sossegados.   

Apenas entristece um pouco  
este ovo azul que as crianças apedrejaram:  
formigas ávidas devoram  
a albumina do pássaro frustrado.   

Caminhávamos devagar,  
ao longo desses dias felizes,  
pensando que a Inteligência  
era uma sombra da Beleza.


CHUVA NA MONTANHA 

Como caíram tantas águas, 
nublou-se o horizonte, 
nublou-se a floresta, 
nublou-se o vale. 

E as plantas moveram-se azuis 
dentro da onda que as toldava. 

Tudo se transformou em cristal fosco: 
as jaqueiras cansadas de frutos, 
as palmeiras de leque aberto, 
e as mangueiras com suas frondes 
de arredondadas nuvens negras superpostas. 

O arco-íris saltou somo serpente multicor 
nessa piscina de desenhos delicados. 


Surdina 

Quem toca piano sobre a chuva, 
na tarde turva e despovoada? 
De que antiga, límpida música 
recebo a lembrança apagada? 

Minha vida, numa poltrona 
jaz diante da janela aberta. 
Vejo árvores, nuvens, - é a longa 
rota do tempo, descoberta. 

Entre os meus olhos descansados 
e os meus descansados ouvidos, 
alguém colhe com dedos calmos 
ramos de som,descoloridos. 

A chuva interfere na música. 
Tocam tão longe! O turvo dia 
mistura piano, árvore, nuvens, 
séculos de melancolia... 


Apresentação 

Aqui está minha vida — esta areia tão clara 
com desenhos de andar dedicados ao vento. 

Aqui está minha voz — esta concha vazia, 
sombra de som curtindo o seu próprio lamento. 

Aqui está minha dor — este coral quebrado, 
sobrevivendo ao seu patético momento. 

Aqui está minha herança — este mar solitário, 
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento. 


 CANTARÃO OS GALOS 

Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, 
tocará nas franjas, nas sêdas mortuárias. 

E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. 

E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, 
talos de cristal, frios, longos ermos, 
e o enorme aroma das árvores. 

Ah, que doce lua verá nossa calma face ainda mais calma que 
o seu grande espelho de prata ! 

Que frescura espessa em nossos cabelos,  
livres como os campos pela madrugada ! 

Na névoa da aurora, a última estrela subirá pálida. 

Que grande sossego, sem falas humanas,  
sem o lábio dos rostos de lobo, 
sem ódio, sem amor, sem nada !   
Como escuros profetas perdidos, 
conversarão apenas os cães, pelas várzeas. 

Fortes perguntas. Vastas pausas. 

Nós estaremos na morte com aquele suave contorno 
de uma concha dentro da água. 


PALAVRAS   

ESPADA entre flores,  
Rochedo nas águas,  
Assim firmes, duras,  
Entre as coisas fluídas,  
Fiquem as palavras,  

As vossas palavras.   
Pois se por acaso  
Dentro dos sepulcros  
Acordassem as almas  
E em sonhos confusos  
Suspirassem rumos  
De história passadas  
E houvesse um tumulto  
De ânsias e de lágrimas,   
- lembrassem as lágrimas  
caídas no mundo  
nas noites amargas  
cercadas dos muros  
das vossas palavras.  
Todas as palavras   

Nos espelhos puros  
Que a memória guarda,  
Fique o rosto surdo,  
A música brava  
Do humano discurso.  
De qualquer discurso.   

Só de morte exata  
Sonharão os justos,  
Saudosos de nada,  
Isentos de tudo,  
Pascendo auras claras,  
Livres e absolutos,  
Nos campos de prata  
Dos túmulos fundos.   

No meio das águas,  
Das pedras, das nuvens,  

Verão as palavras:  
Estrelas de chumbo,  
Rochedos de chumbo.  
A cegueira da alma.  
O peso do mundo.   

Adeus, velhas falas  
E antigos assuntos!       


TEMPO VIAJADO 

DOS MEUS RETRATOS rasgados 
Me recomponho, 
Com minhas espumas de acaso, 
Meus solos vivos de fogo. 

Muito se sofre. 
As doces uvas sabem a enxofre. 

Vulcões mordem as raízes 
Das minhas plantas. 
Em barcos postos a pique, 
Naufragaram minhas lembranças. 

Dizei-me por que lugares 
Que pastores pastoreiam 
Até sempre estas saudades 

A mim mesmo tão alheias. 

Muito se pena. 
E vimos na areia morrer a sirena. 

Procuro pelo meu rosto 
O tempo que se desprende. 
Que agulhas de desencontro 
Separaram minha gente? 

Dos meus retratos rasgados 
Me levanto. 
E acho-me toda em pedaços, 
E assim mesmo vou cantando. 

Muito se perde: 
Pela terra negra ou pela água verde. 

(Se Deus agora me visse, 
abaixaria seus olhos 
e ficaria mais triste.) 


Balada das Dez Bailarinas do Cassino 

Dez bailarinas deslizam 
por um chão de espelho. 
Têm corpos egípcios com placas douradas, 
pálpebras azuis e dedos vermelhos. 
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas, 
e dobram amarelos joelhos. 

Andam as dez bailarinas 
sem voz, em redor das mesas. 
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores 
e com os charutos toldam as luzes acesas. 
Entre a música e a dança escorre 
uma sedosa escada de vileza. 

As dez bailarinas avançam 
como gafanhotos perdidos. 

Avançam, recuam, na sala compacta, 
empurrando olhares e arranhando o ruído. 
Tão nuas se sentem que já vão cobertas 
de imaginários, chorosos vestidos. 

A dez bailarinas escondem 
nos cílios verdes as pupilas. 
Em seus quadris fosforescentes, 
passa uma faixa de morte tranqüila. 
Como quem leva para a terra um filho morto, 
levam seu próprio corpo, que baila e cintila. 

Os homens gordos olham com um tédio enorme 
as dez bailarinas tão frias. 
Pobres serpentes sem luxúria, 
que são crianças, durante o dia. 
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas, 
embalsamados de melancolia. 

Vão perpassando como dez múmias, 
as bailarinas fatigadas. 
Ramo de nardos inclinando flores 
azuis, brancas, verdes, douradas. 
Dez mães chorariam, se vissem 
as bailarins de mãos dadas. 


PRANTO NO MAR   

EU SEMPRE TE DISSE que era grande o oceano  
Para a nossa pequena barca.  
Cantavas, quando eu te dava o desengano  
De partir por água tão larga.   

Não, tu não devias ter ido.  
Mas foi tempo perdido.   

Eu sempre te disse que os olhos de um morto  
Ficavam nas águas suspensos,  
Procurando os vivos, os mastros, o porto,  
Na oscilação de águas e ventos.   

Não, tu não devias ter ido.  
Mas era amor perdido.   
  
Teço velas negras para abarca nova,  
Redes de prata para as ondas.  
Ensinai-me, peixes, sua funda cova  

Nestas escuridões tão longas!   

Não, tu não devias ter ido.  
E isto é pranto perdido.    



CANÇÃO   

Eras um rosto  
Na noite larga  
De altas insônias  
Iluminada.   

Serás um dia  
Vago retrato  
De quem se diga:  
“o antepassado”   

Eras um poema  
Cujas palavras  
Cresciam dentre  
Mistério e lágrimas.   

Serás silêncio,  
Tempo sem rastro,  
De esquecimentos  
Atravessados.  

Disso é que sofre  
A amargurada  
Flor da memória  
Que ao vento fala.         


IMPROVISO   

Eu mesma sou a culpada  
Dos malefícios alheios.  
A quem não podia nada,  
Eu é que fui dar os meios  
Para me ver maltratada.   

Vai correndo, fonte pura,  
Não mires quem te bebeu.  
Não queiras ver a criatura  
Que se nutriu do que é teu.  
Salva-te da desventura! 


Fui mirar-me   

Fui mirar-me num espelho  
e era meia-noite em ponto.  
Caiu-me o cristal das mãos  
como as lembranças do sono.   

Partiu-se meu rosto em chispas  
como as estrelas num poço.  
Partiu-se meu rosto em cismas  
- que era meia-noite em ponto.   

Dizei-me se é morte certa,  
que me deito e me componho,  
fecho os olhos, cruzo os dedos  
sobre o coração tão louco.   

E digo às nuvens dos anjos:  
"Ide-vos pelo céu todo,  
avisai a quem me amava  
que aqui docemente morro.   

Pedi que fiquem amando  
meu coração silencioso  
e a música dos meus dedos  
tecida com tanto sonho.   

De volta, achareis minha alma  
tranqüila de estar sem corpo.  
Rebanhos de amor eterno  
passarão pelo meu rosto.       


CANÇÃO 

Se de novo passares,  
não procures por mim.  
Preservemos o fim  
dos saudosos olhares. 

Bem sei que a noite e os rios  
engendram muita flor  
parecida com o amor, 
em seus ermos sombrios. 

Mas nem penso aonde vais.  
Adormeço nos prados  
com os lábios ocupados  
no néctar do jamais. 

Um tempo sem fronteiras  
se abriu diante de nós. 

Quando tiveram voz 
as verdades inteiras? 

Ai, talvez noutro instante  
chegue perto de ti,  
para ver que perdi  
minha alma antiga, — e cante. 

Talvez chegue, talvez,  
mas que não seja agora, 
quando quem foste chora  
aquilo que não vês. 

Uma vaga canção  
cantarei com doçura, 
e será morte escura  
sobre o meu coração. 


INFÂNCIA 

Levaram as grades da varanda 
Por onde a casa se avistava. 
As grades de prata. 

Levaram a sombra dos limoeiros 
Por onde rodavam arcos de música 
E formigas ruivas. 

Levaram a casa de telhado verde 
Com suas grutas de conchas 
E vidraças de flores foscas. 

Levaram a dama e o seu velho piano 
Que tocava, tocava, tocava 
A pálida sonata. 

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos, 
Deixaram somente a memória 
E as lágrimas de agora. 


IMPROVISO 

Minha canção não foi bela: 
Minha canção foi só triste. 
Mas eu sei que não existe 
Mais canção igual àquela. 

Não há gemido nem grito 
Pungentes como a serena 
Expressão da doce pena. 

E por um tempo infinito 
Repetiria o meu canto 
- saudosa de sofrer tanto. 


 Pomba em Broadway   
   
Naquele reino cinzento  
veio a pomba bater asas  
contra muros de cimento.   

Veio a pomba bater asas  
aquele reino severo  
com portas negras nas casas.   

O rumor de suas penas  
era um sussurro de fontes  
brancas em tardes morenas.   

Era um sussurro de fontes,  
mas ai! por densas paredes  
e verticais horizontes!   
  
Que mensagem conduzia  
subindo e descendo os ares,  
pela fronteira do dia,   

subindo e descendo os ares,  
estrangulada nos muros  
daqueles densos lugares,   

por onde vultos escuros,  
o ouro do mundo levavam  
fechado densos lugares,   

por onde vultos escuros,  
o ouro do mundo levavam  
fechado nos punhos duros?   

Batia as asas, batia,  
jorrava auroras de prata  
no peito morto do dia.  
  
Mas uma noite sem data  
vinha dobrando as esquinas  
com acautelada pata.  


Canção do Amor-Perfeito 

O tempo seca a beleza. 
seca o amor, seca as palavras. 
Deixa tudo solto, leve, 
desunido para sempre 
como as areias nas águas. 

O tempo seca a saudade, 
seca as lembranças e as lágrimas. 
Deixa algum retrato, apenas, 
vagando seco e vazio 
como estas conchas das praias. 

O tempo seca o desejo 
e suas velhas batalhas. 
Seca o frágil arabesco, 
vestígio do musgo humano, 
na densa turfa mortuária. 

Esperarei pelo tempo 
com suas conquistas áridas.  

Esperarei que te seque, 
não na terra, Amor-Perfeito, 
num tempo depois das almas. 


Os Gatos da Tinturaria   

Os gatos brancos, descoloridos,  
passeiam pela tinturaria,  
miram polícromos vestidos.   

Com soberana melancolia,  
brota nos seus olhos erguidos  
o arco-íris, resumo do dia,   

ressuscitando dos seus olvidos,  
onde apagado cada um jazia,  
abstratos lumes sucumbidos.   

No vasto chão da tinturaria,  
xadrez sem fim, por onde os ruídos  
atropelam a geometria,   

os grandes gatos abrem compridos  
bocejos, na dispersão vazia  
da voz feita para gemidos.   

E assim proclamam a monarquia  
da renúncia, e, tranquilos vencidos,  
dormem seu tempo de agonia.   

Olham ainda para os vestidos,  
mas baixam a pálpebra fria. 


Entusiasmo 

Por uns caminhos extravagantes, 
irei ao encontro desses amores 
-por que suspiro – distantes. 

Rejeito os vossos, que são de flores. 
Eu quero as vagas, quero os espinhos 
e as tempestades, senhores. 

Sou de ciganos e de adivinhos. 
Não me conformo com os circunstantes 
e a cor dos vossos caminhos. 

Ide com os zoilos e os sicofantes. 
Mas respeitai vossos adversários 
que não querem ser triunfantes. 

Vou com sonâmbulos e corsários, 
poetas, astrólogos e a torrente 
dos mendigos perdulários. 

E cantamos fantasticamente, 
pelos caminhos extravagantes, 
para Deus, nosso parente. 


Retrato de uma criança com a flor na mão  

Quem lhe ensinara o sorriso 
e a graça de assim ficar 
com as luzes do paraíso 
sustentadas no olhar? 

Naquele instante divino, 
com a tênue flor na mão. 
recebeu seu destino 
palma e galardão. 

Não se repete na vida 
a hora clara existida 
livre de tempo e dor. 

Era tão linda! E estou triste. 
Deus, por que permitiste 
sobrevivesse à flor? 


Faisão Prateado 

Quem trouxe o faisão prateado 
para a sombra de meus ramos? 
não é meu, não se demora, 
e estão meus olhos chorando. 

Tem longas plumas de adeuses, 
tem asas tênues de cinza. 
Tem uma voz de lonjura 
dilatada na pupila. 

Ah, faisão prateado! 

Com seus modos de safira, 
em finos corais pousado, 
vai fugindo e vai cortando 
meu coração como um barco. 

Não te quero! Não te quero! 
Só pergunto quem te trouxe. 
tristezas de nunca e sempre 
não se comparam às de hoje. 

Ah, faisão pratedo! 

Bem que canto " Não te quero", 
como alguém que nada sofre. 
Deus sabe quanto me custa. 
Deus sabe que não me socorre.


Tempo Celeste 

Relógios certeiro: 
a noiva já desce, 
e está pronta e morta. 

Por sombra de flores 
Os carros deslizam, 
as portas afastam-se. 

O mundo recende, 
cercado de lua 
vacilante rosa. 


 Se eu fosse apenas... 

Se eu fosse apenas uma rosa, 
com que prazer me desfolhava, 
já que a vida é tão dolorosa 
e não te sei dizer mais nada! 
Se eu fosse apenas água ou vento, 
com que prazer me desfaria, 
como em teu próprio pensamento 
vais desfazendo a minha vida! 
Perdoa-me causar-te a mágoa 
desta humana, amarga demora! 
- de ser menos breve do que a água, 
mais durável que o vento e a rosa...  


Fragilidade 

Teu nome nas águas 
tão fundas, tão grandes, 

perde-se na espuma, 
castelo de instantes. 

No aço azul da noite 
teu firme retrato 

acorda entre nuvens 
já desbaratado. 

A sorte da pedra 
é tornar-se areia: 

Mas quem não soluça 

pensando em teu rosto 

reduzido a poeira... 


Desenho leve 

Via-se morrer o amor 
de braços abertos. 

Uma espuma azul andava 
nas areias desertas. 

Nos galhos frescos das árvores, 
recentemente cortadas, 
meninas todas de branco 
se balançavam. 
O eco partia o baralho 
de suas risadas. 

Via-se morrer o amor 
de mãos estendidas. 

Uma lua sem memória 
pelas águas transparentes 
arrastava seus vestidos. 

Via-se morrer o amor 
de solidões cercado. 

Via-se e tinha-se pena 
sem se poder fazer nada. 

E era uma tarde de lua, 
com vento pelas estrelas 
esquecidas. 

E ao longe riam-se as crianças: 
no princípio do mundo, 
no reino da infância.  


A flor e o ar 

A flor que atiraste agora, 
quisera trazê-la ao peito; 
mas não há tempo nem jeito... 
Adeus, que me vou embora. 

Sou dançarina do arame, 
não tenho mão para flor: 
Pergunto, ao pensar no amor, 
como é possível que se ame. 

Arame e seda, percorro 
o fio do tempo liso. 
E nem sei do que preciso, 
de tão depressa que morro. 

Neste destino a que vim, 
tudo é longe, tudo é alheio. 
Pulsa o coração no meio 
só para marcar o fim.  


A Alegria 

No fundo de um poço 
deitei a Alegria, 
dizendo-lhe: “Espera 
que volto algum dia, 
com louros e rosas, 
Amor e Poesia.” 

No fundo de um poço 
por que a deitaria? 
Por que desprezava 
sua companhia? 
Pensei que no mundo 
tudo padecia. 
Ai, como o pensava! 
E não a queria. 

No fundo de um poço 
deitei a Alegria. 
Chegaram os tristes 
por quem eu sofria. 
Consigo a levaram 
- e de longe o via! - 
Nunca perguntaram 
a quem pertencia. 

Sofrer por sofrer, 
somente eu sofria. 
Os outros, - apenas 
querendo alegria. 
À beira do poço 
voltarei um dia. 

Pousarei meu rosto 
na água negra e fria, 
em ramos serenos 
de Amor e Poesia. 
Direi meu segredo, 
sem melancolia. 

E na água profunda, 
sem noite nem dia, 
eu mesma serei 
minha companhia. 
Eu quis outra coisa 
que ninguém queria. 

Nem tenho saudade 
da antiga Alegria. 

 Em retrato natural 


Respiro teu nome   

Respiro teu nome.  
que brisa tão pura  
súbito circula  
no meu coração.   

Respiro teu nome.  
repentinamente,  
de mim se desprende  
a voz da canção.   

Respiro teu nome.  
Que nome? Procuro...  
- Ah teu nome é tudo.  
E é tudo ilusão.   
  
Respiro teu nome.  
Sorte. Vida. Tempo.  
 Meu contentamento  
é límpido e vão.   

Respiro teu nome.  
Mas teu nome passa.  
Alto é o sonho. Rasa,  
minha breve mão.  

1956        


Entre lágrimas se fala   

Entre lágrimas se fala  
- e Deus sabe o que se sente!  
Mas de longe não se escuta  
nem se entende.   

A voz é rouca e dorida  
e a distância, tão penosa...  
Quem sofre já não se espanta:  
cala e chora.   

Apenas, uma pergunta  
às vezes, tímida, ocorre:  
para que, noites e dias,  
chora e sofre?   

Quando amanhã todos formos  
a mesma terra perdida,  
ninguém saberá das dores  
que sofria.  

Onde o lábio sem resposta?  
Onde, os olhos ainda cheios...?  
Onde, o coração que havia?  
Onde o peito?   

De tão longe, não se escuta.  
Não se escuta e não se entende.  
Deus, entre as lágrimas fala:  
- não se sente.  


Na ponta do morro   

Na ponta do morro,  
mulheres descalças  
põem flores nas jarras  
da capela de ouro.   

As jarras são feias,  
têm asas quebradas.  
Também as toalhas  
se esgarçam nas rendas.    

As mulheres passam,  
com gestos antigos,  
entre crucifixos  
e auréolas de prata.   

Seus gestos são os mesmos  
gestos de outras datas,  
dentro de outras raças,  
longe, noutros templos.   

Mas não sabem disso,  
e mudam, nas jarras,  
as flores e a água  
com o jeito submisso   

de quem se contenta  
em ser sombra vaga  
da Vida Sonhada  
por toda a existência.    
        

 Coração de pedra   

Oh, quanto me pesa  
este coração, que é de pedra.  
Este coração que era de asas,  
de música e tempo de lágrimas.   

Mas agora é sílex e quebra  
qualquer dura ponta de seta.   

Oh, como não me alegra  
ter este coração de pedra.   

Dizei por que assim me fizestes,  
vós todos a quem amaria,  
mas não amarei, pois sois estes  
que assim me deixastes amarga,  
sem asas, sem música e lágrimas,   

assombrada, triste e severa  
e com o meu coração de pedra.   

Oh, quanto me pesa  
ver meu puro amor que se quebra!  
O amor que era tão forte e voava  
mais que qualquer seta!  


Já não tenho lágrimas   

Já não tenho lágrimas:  
estão caídas  
longe, em vagas margens,  
qual mornas ovelhas  
recém-nascidas.    

Longe estão caídas,  
entre esses montes  
de saudades vivas,  
de figuras frias,  
ai, de que horizontes!   

Suspirosos montes!  
Porém, agora,  
talvez não me encontrem.  
Pois a alma se esconde,  
porque já nem chora.
  
1956 


Ribeira da minha vida   

Ribeira da minha vida  
por onde agora andarão  
meus barcos de ausência e bruma,  
com sua tripulação!   

Pergunto se estão de volta,  
pergunto se ainda se vão.  
Ribeira dos meus cuidados,  
minha voz é solidão.   

Ribeira da minha vida,  
por que sinto o coração  
morrer-me nestas areias  
de antiga recordação?   

Hei de ser o mar e o vento,  
 e a noite, e a constelação,  
- ribeira dos meus cuidados! -  
e a própria navegação.   

Ribeira da minha vida,  
hei de mudar de aflição:  
não mais despedida ou espera,  
mas naufrágio ou salvação.           


 Por que Nome Chamaremos   

Por que nome chamaremos   
quando nos sentirmos pálidos  
sobre os abismos supremos?   

De que rosto, olhar, instante,   
veremos brilhar as âncoras   
para as mãos agonizantes?   

Que salvação vai ser essa,   
com tão fortes asas súbitas,   
na definitiva pressa?   

Ó grande urgência do aflito!   
Ecos de misericórdia   
procuram lágrima e grito,   
- andam nas ruas do mundo,   
pondo sedas de silêncio   
em lábios de moribundo.     


 AQUI SOBRE A NOITE 

Aqui sobre a noite,  
na cinza das pálpebras,  
no meio das rosas,  
no sono das aves,  
nas franjas da lua,  
nas imóveis águas,    

aqui, sobre a tênue   
seda da saudade,  
a perpétua face. 
   
Sozinha contemplo  
o ardente milagre.  
Ninguém mais te avista,  
Verônica suave!  
-Desenho do sonho   
 que a noite reparte.   

Por que me apareces  
igual à verdade,  
ilusória imagem?   

Na minha alegria,  
corre um mar de lágrimas.  
Tudo se repete,  
na terra e nos ares,  
e os meus pensamentos  
são só teu retrato.   

Em puro silêncio,  
luminosa jazes:  
tão doce e tão grave!   

Fita bem meu rosto,  
guarda os olhos pálidos  
 com rios antigos  
por onde viajaste.  
Lembra-te da minha   
sombra humana, diáfana,   

-pode ser que um dia  
todos nós passemos  
pela Eternidade.            


  Se estive no mundo 
   
SE ESTIVE no mundo  
ou fora do mundo. . . ?  
Mas que lhe respondo,  
se o Arcanjo pergunta,  
num tempo profundo?   

No mundo passava:  
porém muito longe.  
Por sonhos e amores  
me desintegrava.   

O mundo não via:  
minha permanência  
foi, por toda parte,  
fantasmagoria.   
  
Dava, mas não tinha.  
E, nessa abundância,    
nada me ficava:  
 nem sei se fui minha. 
   
Se estive no mundo  
ou fora do mundo?  
-Assim me apresento,  
se o Arcanjo pergunta  
     meu nome profundo.        


De que são feitos os dias?    

De que são feitos os dias?   
- De pequenos desejos,   
vagarosas saudades,   
silenciosas lembranças.    

Entre mágoas sombrias,   
momentâneos lampejos:   
vagas felicidades,   
inatuais esperanças.    

De loucuras, de crimes,   
de pecados, de glórias   
- do medo que encadeia   
todas essas mudanças.    

Dentro deles vivemos,   
dentro deles choramos,   
em duros desenlaces   
e em sinistras alianças...         


Virgem, no teu coração...   

Virgem, no teu coração,  
sete espadas encontrei.  
Sete vezes sete são  
as minhas, segundo a Lei.    

(Sangue que corres, por quem  
minhas veias deixarás?  
Morre-se só. E a ninguém  
com o morrer se deixa em paz!)   

Num cego mundo sem fim,  
é bem que se morra só.  
Virgem, lembra-te de mim,  
deste meu misero pó,   

que foi coração também,  
todo recortado de ais,  
e já nem espaço tem  
para outras espadas mais!   

Virgem, no teu coração,  
sete espadas encontrei.  
Pelas tuas, chorarão.  
            Pelas minhas, não chorei.              

  
Ó peso do coração!   

Ó peso do coração!  
Na grande noite da vida,  
teus pesares que serão?   

A sorte amadurecida  
resplandece em minha mão:  
lúcida, clara, polida.   

Nem saudade nem paixão  
nem morte nem despedida  
seu brilho escurecerão.   

Na grande noite da vida  
brilha a sorte. O coração,  
porém, é a dor desmedida.   
        Maior que a sorte e que a vida...          


 Assim moro em meu sonho   

Assim moro em meu sonho:   
como um peixe no mar.   
O que sou é o que vejo   
Vejo e sou meu olhar.    

Água é meu próprio corpo,   
simplesmente mais denso.   
E meu corpo é minha alma,   
e o que sinto é o que penso.    

Assim vou no meu sonho.   
Se outra fui, se perdeu.   
É o mundo que me envolve?   
Ou sou contorno seu?    

Não é noite nem dia,   
 não é morte nem vida:   
é viagem noutro mapa,   
sem volta nem partida.    

O céu da liberdade,   
por onde o coração   
já nem sofre, sabendo   
que bateu sempre em vão.   

        
Quando meu rosto contemplo   

Quando meu rosto contemplo,  
o espelho se despedaça  
por ver como passa o tempo  
e o meu desgosto não passa.   

Amargo campo da vida,  
quem te semeou com dureza,  
que os que não se matam de ira  
morrem de pureza tristeza?  

1956   


Dai-me algumas palavras...   

Dai-me algumas palavras,  
- porém, somente algumas! –  
que às vezes apetece,  
pelos jardins da areia,  
colher flores de espuma.   

Deixai, deixai, secreto,  
o silencio que dorme   
ás portas da minha alma,  
guardando os labirintos  
e as esfinges enormes.   

(O silencio caído  
com seus firmes oceanos   
- onde não há mais nada  
dos litorais do mundo  
 nem do périplo humano!   


Ó noite , negro piano   

Ó NOITE, negro piano,  
- os sonhos soam longe,  
num teclado caído  
pelo fundo horizonte. ... 

À música se inclina  
o pensamento insone:  
em que clave se escreve  
o itinerário do homem?   

Mas as brisas celestes  
se abraçam na noite  
põem folhas de silêncio  
na vaporosa fronte...)   

Ó música sonhada,  
- por que não corresponde  
o desenho que vives  
à vida que te sonhe...?     


De longe te hei de amar   

De longe te hei de amar,  
- da tranqüila distância  
em que o amor é saudade  
e o desejo, constância.   

Do divino lugar  
onde o bem da existência  
é ser eternidade  
é parecer ausência.   

Quem precisa explicar  
o momento e a fragrância  
da Rosa, que persuade  
sem nenhuma arrogância ?   

E, no fundo do mar,  
 a estrela, sem violência,  
cumpre a sua verdade,  
            alheia à transparência.                  


Os sonhos são flores altas   

Os sonhos são flores altas  
de umas distantes montanhas  
que um dia se alcançarão.   

Resta a areia, resta o barro,  
pobreza de folha e conchas  
em campos de solidão.   

A menina da varanda,  
com tantas asas nos braços  
e borboletas na mão,  
viu partirem grandes barcos,  
por mares que não são de água  
mas sim de recordação.   

Os sonhos são flores altas  
 dentro dos olhos fechadas,  
além da imaginação.   

A menina da varanda  
 dormirá sobre os seus ossos.  
E os sonhos, flores tão altas,  
de seus ossos nascerão.  

1956      


Dos campos do Relativo   

Dos campos do Relativo  
escapei.  
se perguntam como vivo,  
que direi?    

De um salto firme e tremendo,  
- tão de além! –  
chega-se onde estou vivendo  
sem ninguém.   

Gostava de estar contigo:  
mas fugi.  
Hoje, o que sonho, consigo,  
já sem ti.   

Verei, como quem sempre ama,  
que te vais.   
Não se volta, não se chama  
nunca mais.    

Os campos do Relativo  
serão teus.  
Se perguntam como vivo?  
- De adeus.  

1956  
  

Única sobrevivente... 
   
Única sobrevivente  
de uma casa desabada  
- só eu me achava acordada.   

E recordo a minha gente,  
na noite sem madrugada.  
Só eu me achava acordada.   

Minha morte é diferente:  
eles não souberam nada.  
Só eu me achava acordada.   

Mas quem sabe o que se sente,  
entre ir na casa afundada  
e ter ficado – acordada!?    


Amor, ventura...   

Amor, ventura,  
não tenho.  
Mas dor obscura  
e tempo.   

Deus encoberto   
não vejo,  
mas perto e certo  
o entendo.   

Viver, não vivo:  
contemplo  
meu sonho ativo  
e isento.   

Que mundo existe,  
suspenso,  
depois de um triste  
degredo?    

Não quero o acaso!  
E penso:  
lavra o meu prazo  
que vento?    

Em Canções


Suavíssima 

Os galos cantam, no crepúsculo dormente... 
No céu de outono, anda um langor final de pluma 
que se desfaz por entre os dedos, vagamente... 

Os galos cantam, no crepúsculo dormente... 
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma... 

Fica-se longe, quase morta, como ausente... 
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma... 
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente, 

de um mal sem dor, que se não saiba nem resuma... 
E os galos cantam, no crepúsculo dormente... 

Os galos cantam, no crepúsculo dormente... 
A alma das flores, suave e tácita, perfuma 
a solitude nebulosa e irreal do ambiente... 

Os galos cantam, no crepúsculo dormente... 
Tão para lá!... No fim da tarde... Além da bruma... 

E silenciosos, como alguém que se acostuma 
a caminhar sobre penumbras, mansamente, 
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma... 

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma... 
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...  

1925

 Em Baladas para El -Rei


I    

Não queiras ter Pátria.   
Não dividas a Terra.  
Não dividas o Céu.  
Não arranques pedaços ao mar.  
Não queiras ter.  
Nasce bem alto,  
Que as coisas todas serão tuas.  
Que alcançarás todos os horizontes.  
Que o teu olhar, estando em toda a parte  
Te ponha em tudo,  
Como Deus.  


II  
   
Não sejas o de hoje.  
Não suspires por ontens...  
Não queiras ser o de amanhã.  
Faze-te sem limites no tempo.  
Vê a tua vida em todas as origens.  
Em todas as existências.  
Em todas as mortes.  
E sabe que serás assim para sempre.  
Não queiras marcar a tua passagem.  
Ela prossegue:  
É a passagem que se continua.  
É a tua eternidade...  
É a eternidade.  
És tu.  


III    

Não digas onde acaba o dia.  
Onde começa a noite.  
Não fales palavras vãs.  
As palavras do mundo.  
Não digas onde começa a terra.  
Onde termina o Céu. 
Não digas até onde és tu.  
Não digas desde onde é Deus. 
Não fales palavras vãs.  
Desfaze-te da vaidade triste de falar.  
Pensa, completamente silencioso.  
Até a glória de ficar silencioso.  
Sem pensar.  
  

IV    

Adormece o teu corpo com a música da vida.  
Encanta-te.  
Esquece-te.  
Tem por volúpia a dispersão. 
Não queiras ser tu. 
Quere ser a alma infinita de tudo.  
Troca o teu curto sonho humano  
Pelo sonho imortal.  
O único.  
Vence a miséria de ter medo.  
Troca-te pelo Desconhecido.  
Não vês, então, que ele é maior?  
Não vês que ele não tem fim?  
Não vês que ele és tu mesmo? 
Tu que andas esquecido de ti?  


V    

Esse teu corpo é um fardo.  
È uma grande montanha abafando-te.  
Não te deixando sentir o vento livre  
Do Infinito.  
Quebra o teu corpo em cavernas  
Para dentro de ti rugir  
A força livre do ar.  
Destrói mais essa prisão de pedra.  
Faze-te recepo.  
Âmbito.  
Espaço.  
Amplia-te.  
Sê o grande sopro  
Que circula...  


VI   
  
Tu tens um medo:  
Acabar.  
Não vês que acabas todo dia.  
Que morres no amor.  
Na tristeza.  
Na dúvida.  
No desejo.  
Que te renovas todo dia.  
No amor.  
Na tristeza.  
Na dúvida.  
No desejo.  
Que és sempre outro.  
Que és sempre o mesmo.  
Que morrerás por idades imensas.  
Até não teres medo de morrer.   
E então serás eterno.  


VII    

Não ames como os homens amam.  
Não ames com amor.  
Amor sem amor.  
Ama sem querer.  
Ama sem sentir.  
Ama como se fosses outro.  
Como se fosses amar.  
Sem esperar.  
Por não esperar.  
Tão separado do que ama, em ti,  
Que não te inquiete  
Se o amor leva à felicidade,  
Se leva à morte,  
Se leva a algum destino.  
Se te leva.  
E se vai, ele mesmo...    

   
VIII    

Não digas: “O mundo é belo”  
Quando foi que viste o mundo?  
Não digas: “O amor é triste”.  
Que é que tu conheces do amor?  
Não dias: “A vida é rápida”.  
Como foi que mediste a vida?  
Não digas: “Eu sofro”.  
Que é que dentro de ti és tu?  
Que foi que te ensinaram  
Que era sofrer?  


IX    

Os teus ouvidos estão enganados.  
E os teus olhos.  
E as tuas mãos.  
E a tua boca anda mentindo  
Enganada pelos sentidos.  
Faze silêncio no teu corpo.  
E escuta-te.  
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.  
A verdade sem palavras.  
Que procuras inutilmente,  
Há tanto tempo,  
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.  


X    

Este é o caminho de todos que virão.  
Para te louvarem.  
Para não te verem.  
Para te cobrirem de maldição.  
Os teus braços são muito curtos.  
E é larguíssimo este caminho.  
Com eles não poderás impedir  
Que passem, os que terão de passar,  
Nem que fiques de pé,  
Na mais alta montanha,  
Com os teus braços em cruz.  


XI    

Vê formaram-se todas as águas  
Todas a s nuvens.  
Os ventos virão de todos os nortes.  
Os dilúvios cairão sobre os mundos.  
Tu não morrerás.  
Não há nuvens que te escureçam.  
Não há ventos que te desfaçam.  
Não há águas que te afoguem.  
Tu és a própria nuvem.  
O próprio vento.  
A própria chuva sem fim...  


XII    

Não fales as palavras dos homens.  
Palavras com vida humana.  
Que nascem, que crescem, que morrem.  
Faze a tua palavra perfeita.  
Dize somente coisas eternas.  
Vive em todos os tempos  
Pela tua voz.  
Sê o que o ouvido nunca esquece.  
Repete-te para sempre.  
Em todos os corações.  
Em todos os mundos.  
     

XIII    

Renova-te.  
Renasce em ti mesmo.  
Multiplica os teus olhos, para verem mais.  
Multiplica os teus braços para semeares tudo.  
Destrói os olhos que tiverem visto.  
Cria outros, para as visões novas.  
Destrói os braços que tiverem semeado.  
Para se esquecerem de colher.  
Sê sempre o mesmo.  
Sempre outro.  
Mas sempre alto.  
Sempre longe.  
E dentro de tudo.  


XIV    

Eles te virão oferecer o ouro da Terra.  
E tu dirás que não.  
A beleza.  
E tu dirás que não.  
O amor.  
E tu dirás que não, para sempre.  
Eles te oferecerão o ouro d’além da Terra.  
E tu dirás sempre o mesmo.  
Porque tens o segredo de tudo.  
E sabes que o único bem é o teu.  


XV    

Não queiras ser.  
Não ambiciones. 
Não marques limites ao eu caminho.  
A Eternidade é muito longe.  
E dentro dele tu te moves, eterno.  
Sê o que vem e o que vau.  
Sem forma.  
Sem termo.  
Como uma grande luz difusa.  
Filha de nenhum sol.  
     

XVI    

Tu ouvirás esta linguagem,  
Simples,  
Serena, difícil.  
Terás um encanto triste.  
Como os que vão morrer,  
Sabendo o dia...  
Mas intimamente  
Quererás esta morte,  
Sentindo-a maior que a vida.  


XVII    

Perguntarão pela tua alma.  
A alma que é ternura,  
Bondade,  
Tristeza,  
Amor.  
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo  
Livre, por entre os mundos...  
E eles compreenderão que a alma pesa.  
Que é um segundo corpo,  
E mais amargo,  
Porque não se pode mostrar,  
Porque ninguém pode ver...  


XVIII    

Quando os homens na terra sofrerem  
Sofrimento do corpo,  
Sofrimento da alma,  
Tu não sofrerás.  
Quando os olhos chorarem  
E as mãos e quebrarem de angústia  
E a voz se acabar no rogo e na ameaça.  
Quando os homens viverem,  
Tu não viverás.  
Quando os homens morrerem na vida,  
Quando os homens nascerem na morte,  
Na vida e na morte nunca mais  
Nunca mais tu não morrerás.  


XIX    

Não tem mais lar o que mora em tudo.  
Não há mais dádivas  
Para o que não tem mãos.  
Não há mundos nem caminhos  
Para o que é maior que os caminhos  
E os mundos.  
Não há mais nada além de ti,  
Porque te dispersaste...  
Circulas em todas as coisas  
E todos te sentem  
Sentem-te como a si mesmos  
E não sabem falar de ti.  


XX    

Não digas que és dono.  
Sempre que disseres  
Roubas-te a ti mesmo.  
Tu, que és senhor de tudo...  
Deixa os escravos rugirem,  
Querendo. Inutiliza o gesto possuidor das mãos. 
Sê a árvore que floresce  
Que frutifica  
E se dispersa no chão.  
Deixa os famintos despojarem-te.  
Nos teus ramos serenos  
Há florações eternas  
E todas as bocas se fartarão.  


XXI    

O teu começo vem de muito longe.  
O teu fim termina no teu começo.  
Contempla-te em redor.  
Compara.  
Tudo é o mesmo.  
Tudo é sem mudança.  
Só as cores e as linhas mudaram.  
Que importa as cores, para o Senhor da Luz?  
Dentro das cores a luz é a mesma.  
Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?  
Dentro das linhas o ritmo é igual.  
Os outros vêem com os olhos ensombrados. 
Que o mundo perturbou.  
Com as novas formas,  
Com as novas tintas.  
Tu verás com os teus olhos.  
Em Sabedoria.  
E verás muito além.  


XXII    

Não busques para lá.  
O que é, és tu.  
Está em ti.  
Em tudo.  
A gota esteve na nuvem.  
Na seiva.  
No sangue.  
Na terra.  
E no rio que se abriu no mar.  
E no mar que se coalhou em mundo.  
Tu tiveste um destino assim.  
Faze-te à imagem do mar.  
Dá-te à sede das praias  
Dá-te à boca azul do céu  
Mas foge de novo à terra.  
Mas não toques nas estrelas.  
Volve de novo a ti.  
Retoma-te.  
   

XXIII    

Não faças de ti  
Um sonho a realizar.  
Vai.  
Sem caminho marcado.  
Tu és o de todos os caminhos.  
Sê apenas uma presença.  
Invisível presença silenciosa.  
Todas as coisas esperam a luz.  
Sem dizerem que a esperam,  
Sem saberem que existe.  
Todas as coisas esperarão por ti,  
Sem te falarem.  
Sem lhes falares.  


XXIV    

Não digas: este que me deu corpo é meu Pai.  
Esta que me deu corpo é minha Mãe.  
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram  
Em espírito.  
E esses foram sem número.  
Sem nome.  
De todos os temos.  
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.  
Todos os que já viveram.  
E andam fazendo-te dia a dia  
Os de hoje, os de amanhã.  
E os homens, e as coisas todas silenciosas.  
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.  
O teu mundo não tem pólos.  
E tu és o próprio mundo.  
     

XXV    

Só o que renuncia  
Altamente:  
Sem tristeza da tua renúncia!  
Sem orgulho da tua renúncia!  
Abre a tua alma nas tuas mãos  
E abre as tuas mãos sobre o infinito.  
E não deixes ficar de ti  
Nem este último gesto!  


XXVI    

O que tu viste amargo,  
Doloroso, Difícil,  
O que tu veste inútil  
Foi o que viram os teus olhos humanos. Esquecidos...  
Enganados...  
No momento da tua renúncia  
Estende sobre a vida  
Os teus olhos  
E tu verás o que vias:  
Mas tu verás melhor...  

Em Cânticos 


5 

Estudo a morte, agora  
– que a vida não se vive,  
pois é simples declive  
para uma única hora.  

E nascemos! E fomos  
tristes crianças e adultos  
ignorantes e cultos,  
de incoerentes assomos.  

E em mistério transidos,  
e em segredo profundo,  
voltamos deste mundo  
como recém-nascidos.  

Que um sinal nos acolha  
nesses sítios extremos,  
pois vamos como viemos,  
sem ser por nossa escolha;  
e quem nos traz e leva   
sabe por que é preciso  
do Inferno ao Paraíso  
andar de treva em treva...     


8 

À beira d’água moro,  à beira d’água,  da água que choro.  

Em verdes mares olho,  em verdes mares,  flor que desfolho.   Tudo o que sonho posso,  tudo o que sonho,  e me alvoroço.  

Que a flor nas águas solto,  e em flor me perco  mas em saudade volto.  


10   

Em colcha florida  
me deitei.  
Pássaros pintados  
escutei.  
Grinaldas nos ares  
completei.   

Da morte e da vida  
me lembrei.  
Dias acabados  
lamentei.   

(Flores singulares  
não bordei.  
A canção trazida  
não cantei.  
  
Naveguei tormentas pelos quatro lados.  
Não as amansei!  

Ó grinaldas, flores, pássaros pintados,  
como dormirei?)       


11   

Chuva fina,  
matutina,  
manselinho orvalho quase:  
névoa tênue sobre a selva,  
pela relva,  
desdobrada, etérea gaze.   

Chuva fina,  
matutina,  
o pardal de úmidas penas,  
a folhagem e a formosa  
clara rosa,  
sonham que és seu sonho, apenas.   

Chuva fina  
matutina,  
 pelo sol evaporada,  
como sonho pressentida  
e esquecida  
no clarão da madrugada.   

Chuva fina,  
matutina:  
brilham flores, brilham asas  
brilham as telhas das casas  
em tuas águas velidas  
e em teu silêncio brunidas...   

Chuva fina,  
matutina,  
que te foste a outras paragens.  
Invisível peregrina,  
clara operária divina,  
entre limpidas viagens.   


23   

Chovem duas chuvas:  
de água e de jasmins  
por estes jardins  
de flores e nuvens.   

Sobem dois perfumes  
por estes jardins  
de flores e nuvens. 
   
Sobem dois perfumes  
por estes jardins:  
de terra e jasmins,  
de flores e chuvas.   

E os jasmins são chuvas  
e as chuvas, jasmins,  
por estes jardins  
de perfume e nuvens.  


27 

Nas quatro esquinas estava a morte,  
que brincava de quatro cantos.  

Nas quatro esquinas estavam postados 
Poetas, soldados, feras e santos.  

Nas quatro esquinas se via a morte  
Chamar o amor com longos prantos. 

Nas quatro esquinas, versos antigos,  
liras finais  
e negros mantos.  

E mulheres feias e belas 
oraculares davam sinais 
pelas janelas.  

E das liras amarguradas  
caíam rosas, rolavam ais 
pelas calçadas.  

Nas quatro esquinas estava a morte,  
por entre luzes amarelas,  
brincando de quatro cantos. 

Morte sem corações parados.  
Morte de mocidade e fados. 
Morte de infâncias. E largos ventos  
de universais arrependimentos.  

Morte de claros dias de outrora. 
Morte que canta porque chora. 
Morte, morte por todos os lados: 
santos, feras, poetas, soldados... 


 32 

Parecia que ia morrendo 
sufocada. 
Mas logo de seu peito vinha 
uma trêmula cascata, 
que aumentava, que aumentava 
com borboletas de espuma 
e fogo e prata. 

Parecia que ia morrendo 
de loucura. 
Mas logo rápida movia 
não sei que vaga porta escura 
e, mais tênue que o sol e a lua, 
passava entre fitas e rosas 
sua figura. 

Parecia que ia morrendo 
em segredo. 
Mas uma rumorosa vida 
rugia mais que oceano ou vento 
nas suas mãos em movimento. 
Agarrava o tempo e o destino 
com um ágil dedo. 

Parecia que ia morrendo 
e revivia. 
E girava saias imensas, 
maiores do que a noite e o dia. 
Rouca, delirante, aguerrida, 
pisando a morte e os maus agouros, 
“olé!” – dizia. 


44 

Houve um poema,  
entre a alma e o universo.  
Não há mais.  
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.  
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.   

Houve um poema:  
Parecia perfeito.  
Cada palavra em seu lugar,  
como as pétalas nas flores  
e as tintas no arco-íris.  
No centro, mensagem doce  
E intransmitida jamais.   

Houve um poema:  
e era em mim que surgia, vagaroso.  
Já não me lembro, e ainda me lembro. 
   
As névoas da madrugada envolvem sua memória.  

É uma tênue cinza.  
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.  
Derradeiro passo.   

Houve um poema.  
Há esta saudade.  
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -  
que caem dos olhos e do céu.          


 19  

Por todos os lados, 
o mar me rodeia; 
me deixa recados 
escritos na areia. 

Das águas sou filha: 
Nasci de um beijo de espuma 
em redor de alguma  
silenciosa ilha.  

Em Morena Pena de amor


Mapa Falso 

Quantas coisas pensei sublimes, 
merecedoras de longas lágrimas! 
Quais era? 
As lãgrimas recordo, 
e as pensativas planícies 
por onde estenderam seus longos rios. 

Mas não levam nenhuma voz, essas águas. 
Tudo foi afogado e sepulto. 

Maiores que as coisas choradas 
eram as lágrimas que as choravam. 

E sua imagem, de longe, é uma solidão se mais nenhum sentido: 
mapa falso que a nossa viagem abandona, 
pois vamos sempre além de tudo, para mais longe... 


Não sei distinguir no céu as várias constelações  
  
Não sei distinguir no céu a várias constelações: 
não sei os nomes de todos os peixes e flores, 
nem dos rios nem das montanhas: caminho 
por entre secretas coisas, a cada lugar em que 
meus olhos pousam, minha boca dirige uma 
pergunta.  
  
Não sei o nome de todos os habitantes do mundo.  
nem verei jamais todos os seus rostos, embora 
sejam meus contemporâneos.  
  
Não, não sei, na verdade, como são em corpo e alma 
todos os meus amigos e parentes. Não entendo 
todas as coisas que dizem, não compreendo bem de 
que vivem, como vivem, como pensam que estão 
vivendo.  

Não me conheço completamente, 
só nos espelhos me encontro, tenho 
muita pena de mim.  
  
Não penso todos os dias exatamente do 
mesmo modo.  
As mesmas coisas me parecem a cada instante diversas.  
Amo e desamo, sofro e deixo de sofrer, ao 
mesmo tempo, nas mesmas circunstancias.  
  
Aprendo e desaprendo, esqueço e lembro, 
meu Deus, que águas são estas onde vivo, 
que ondulam em mim, dentro e fora de mim?  
  
Se dizem meu nome, atendo por habito.  
Que nome é o meu?  
Ignoro tudo.  

Quando alguém diz que sabe alguma coisa, fico 
perplexa:  
ou estará enganado, ou é um farsante  
- ou somente eu ignoro e me ignoro e me ignoro desta maneira?  
  
E os homens combatem pelo que julgam saber. 
E eu, que estudo tanto, inclino a cabeça sem 
ilusões,  
e a minha ignorância enche-me de lagrimas as mãos.  

1960  


Pergunto-te onde se acha a minha vida 

Pergunto-te onde se acha a minha vida.    
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada   
de uma verdade minha bem possuída.   
  
 Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.   
  
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida   
por esperanças hereditárias? E de cada   pergunta 
minha vai nascendo a sombra imensa   que 
envolve a posição dos olhos de quem pensa.   
  
 Já não sei mais a diferença   de ti, de 
mim, da coisa perguntada,   do 
silêncio da coisa irrespondida.  


Todas as coisas têm nome 
  
Todas as coisas têm nome.  
(Têm nome todas as coisas?)  
  
Todos os verbos são atos.  
(São atos todos os verbos?)  
  
Com a gramática e o dicionário  faremos 
nossos pequenos exercícios.  
  
Mas quando lermos em voz alta o que escrevemos, 
não saberão se era prosa ou verso,  
e perguntarão o que se há de fazer com esses escritos:  
  porque existe um som de voz, e um 
eco – e um horizonte de pedra e 
uma floresta de rumores e água  
que modificam os nomes e os 
verbos e tudo não é somente léxico 
e sintaxe.  
  
Assim tenho visto.
  
1960 


O quadro negro  
  
DEPOIS que os teoremas ficam demonstrados, 
quando as equações se tiverem transformado, 
desenvolvido, revelado;  
e o mistério das palavras estiver todo aberto em flores;  
  
quando todos os nomes e números se acharem 
escritos e supostamente compreendidos, com 
vagaroso e leve movimento o Professor 
passará uma silênciosa esponja sobre as coisas 
escritas:  
  
e nos sentiremos outra vez cegos,  
sem podermos recordar o que julgávamos ter 
aprendido, e que apenas entrevíamos,  
como em sonho.  

1963   


Desenho  
  
Traça a reta e a curva, a 
quebrada e a sinuosa.  
Tudo é preciso.  
De tudo viverás.  
  
Cuida com exatidão da perpendicular e 
das paralelas perfeitas.  
Com apurado rigor.  
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, 
traçaras perspectivas, projetaras estruturas.  
Numero, ritmo, distancia, dimensão.  
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.  
  
Construirás os labirintos impermanentes que 
sucessivamente habitaras.  
  Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.  

Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.  
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.  
  
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.  
Raramente, um pouco mais.  

1963   
  

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem....  

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje e 
que amanhã recomeçarei a aprender.  
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:  
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.  
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.  
  
E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.  
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.  
  
De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,  
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano  
permanece constante, obrigatória, livre:   
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.  

Em o estudante empirico


Lei do Passante 

Passante, quase enamorado, 
nem livre nem prisioneiro 
constantemente arrebatado, 
-- fiel? saudoso? amante? alheio? -- 
a escutar o chamado, 
o apelo do mundo inteiro, 
nos contrastes de cada lado... 

Chega? 

Passante quase enamorado, 
já divinamente afeito 
a amar se ter de ser amado, 
porque o tempo é traiçoeiro 
e tudo lhe é tirado 
repentinamente do peito, 
malgrado seu querer, malgrado... 

Passa? 

Passante quase enamorado, 
pelos campos do inverdadeiro, 
onde o futuro é já passado... 
-- Lúcido, calmo, satisfeito, 
-- fiel? saudoso? amante? alheio? – 
só de horizontes convidado... 

Volta? 


 Aparecimento 

A casa cheirava a especiarias 
e o copeiro deslizava descalço, 
levitava em silêncio 
- anjo da aurora entre paredes brancas. 

Crepitava na mesa a manga verde 
e a esbraseada pimenta. 

O dono da casa era ao mesmo tempo 
inatual como um rei antigo 
e simples e próximo com um parente. 

Sua mulher ainda usava um diamante na narina 
e em sua cabeça pousavam muitas coroas 
de histórias antigas e canções de amor. 

E havia a moça, pássaro, princesa, 
com uma diáfana voz de sal e de flores, 
que apenas sussurrava. 

Mas no dia seguinte 
haveria talvez uma crinaça. 
(Estava ali mesmo, naquele mundo de ouro e seda, 
sob aquela diáfana voz de sol e flores.) 

Ia nascer amanhã uma criança. 

E a casa, no meio do campo, 
estendia mil braços ternos e graves 
para o céu, para o rio, para o vento. 
Para o país dos nascimentos, 
á espera dessa crinaça 
nua e pequenina, 
que apareceria de olhos fechados, 

com num breve grito: 

Já sua alma. 

E subiam para Deus fios de incenso, azuis. 


Praia do fim do mundo 

Neste lugar só de areia, 
já não tem terra, ainda não mar, 
poderíamos cantar. 

Ó noite, solidão, bruma, 
país de estrela sem voz, 
que cantaremos nós? 

As sombras nossas na praia 
podem ser noite e ser mar, 
pelo ar e pela água andar. 

Mas o canto, mas o sonho, 
de que modo encontrarão 
o que não é vão? 

Cantemos, porém, amigos, 
neste impossível lugar 
que não é terra nem mar: 

na praia do fim do mundo 
que não guardará de nós 
sombra nem voz. 

 Em Poemas escritos na Índia


Á HORA EM QUE OS CISNES CANTAM ...  
  
Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.  
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.  
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono ...  
Benevolência. Inconseqüência. Inexistência.  
  
Paz dos que não tem fé, nem carinho, nem dono ...  
Todo perdão divino e a divina clemência!  
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono ...  
Esmola que faz bem ... – nem gestos, nem violência...  
  
Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas  
Abstrações. Vão temores de saber. Lento, lento  
Volver de olhos, em torno, augurais e espectrais ...  
  
Todas as negações. Todas as negativas.  
Ódio? Amor? Lê? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?  
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais ...  

1923  
  
  
  BEATITUDE  
  
Corta-me o espírito de chagas!  
Põe-me aflições em toda a vida:  
Não me ouvirás queixas nem pragas ...  
  
Eu já nasci desiludida, de 
alma votada ao sofrimento e 
com renúncias de suicida ...  
  
Sobre o meu grande desalento, 
tudo, mas tudo, passa breve, breve, 
alto e longe como o vento ...  
  
Tudo, mas tudo, passa leve, numa 
sombra muito fugace,   
- Sombra de neve sobre neve ... –  
  
Não deixando na minha face  
nem mais surpresas nem mais sustos:  
- É como, até, se não passasse ...  
  
Todos os fins são bons e justos ... 
alma desfeita, corpo exausto, olho 
as coisas de olhos augustos ...  
  
Dou-lhes nimbos irreais de fausto, 
numa grande benevolência de 
quem nascei u para o holocausto!  
  
Empresto ao mundo outra aparência 
e às palavras outra pronúncia, na 
suprema benevolência  
  
de quem nasceu para a Renúncia! ... 


A INOMINÁVEL... 
  
Leve... — Pluma... Surdina... Aroma... Graça... Qualquer coisa infinita... Amor... Pureza... Cabelo em sombra, olhar ausente, passa como a bruma que vai na aragem presa... 


Silenciosa. Imprecisa. Etérea taça em que adormece luar... Delicadeza... Não se diz... Não se exprime... Não se traça... Fluido... Poesia... Névoa... Flor... Beleza... 


Passa... — É um morrer de lírios... Olhos quase fechados... Noite... Sono... O gesto é gaze a estender-se, a alargar-se... — E enquanto vão 


fugindo aos passos teus, Visão perdida, chovem rosas e estrelas pela vida... Silêncio! Divindade! Iniciação! 


A CHUVA CHOVE  

A chuva chove mansamente ... como um sono que 
tranqüilize, pacifique, resserene ...  
A chuva chove mansamente .... Que abandono!  
A chuva é a música de um poema de Verlaine...  
  
E vem-me o sonho de uma véspera solene, 
em certo paço, já sem data e já sem dono ... 
Véspera triste como a noite, que envenene a 
alma, evocando coisas líricas de outono ...  
  
.... Num velho paço, muito longe, em terra estranha, 
com muita névoa pelos ombros da montanha ...  
Paço de imensos corredores espectrais,  
onde murmurem velhos órgãos árias mortas, 
enquanto o vento, estrepitando pelas portas, revira 
in-fólios, cancioneiros e missais ...  


TUMULTO  
  
Tempestade. O desgrenhamento 
das ramagens ... O choro vão da 
água triste, do longo vento, vem 
morrer-me no coração.  
  
A água triste cai como um sonho, sonho 
velho que se esqueceu ... (quando virás, 
ó meu tristonho  
Poeta, ó doce troveiro meu! ...)  
.....................................................  
E minha alma, sem luz nem tenda, 
passa errante, na noite má, à 
procura de quem me entenda e de 
quem me consolará ...  


ÍSIS  
  
E diz-me a desconhecida: “ Mais 
depressa! Mais depressa! “  
Que eu te vou levar a vida! ...  
  
Finaliza! Recomeça!  
Transpõe glórias e pecados! ...  
Eu não sei que voz seja essa.  
  
Nos meus ouvidos magoados: mas 
guardo a angústia e a certeza de 
ter os dias contados...  
  
Rolo, assim, na correnteza 
da sorte que se acelera entre 
margens de tristeza.  

Sem palácios de quimera, sem 
paisagens de ventura, sem 
nada de primavera...  
Lá vou, pela noite escura, 
pela noite de segredo, como 
um rio de loucura...  
  
Tudo em volta sem medo.... E 
eu passo desiludida, porque eu 
sei que morro cedo...  
  
Lá me vou, sem despedida....  
Ás vezes quem vai, regressa...  
E diz-me a desconhecida:  
  
“ Mais depressa! Mais depressa!  
  
  
CANTIGA OUTONAL  
  
Outono. As árvores pensando ...  
Tristezas mórbidas no mar ...  
O vento passa, brando ... brando ... 
E sinto medo, susto, quando escuto 
o vento assim passar ...  
  
Outono. Eu tenho a alma coberta 
de folhas mortas, em que o luar 
chora, alta noite, na deserta 
quietude triste da hora incerta que 
cai do tempo, devagar ...  
  
Outono. E quando o vento agita, 
agita os galhos negros, no ar, 
minha alma sofre e põe-se aflita,  
na inconsolável, na infinita pena 
de ter de se esfolhar ...  


DEPOIS DO SOL...  
  
Fez-se noite com tal mistério,  
Tão sem rumor, tão devagar,  
Que o crepúsculo é como um luar  
Iluminando um cemitério...  
  
Tudo imóvel... Serenidades...  
Que tristeza, nos sonhos meus! E 
quanto choro e quanto adeus  
Neste mar de infelicidades!  
  
Oh! Paisagens minhas de antanho...  
Velhas, velhas... Nem vivem mais...  
- As nuvens passam desiguais,  
Com sonolência de rebanho...  
  
Seres e coisas vão-se embora...  
E, na auréola triste do luar,  
Anda a lua, tão devagar,  

Que parece Nossa Senhora  
Pelos silêncios a sonhar...  


POEMA DA TRISTEZA  
  
Sou triste porque sonhei 
coisas inalcançáveis, que 
se não devem sonhar...  
  
Foram punidas as minhas mãos, 
e sangraram, pelo pecado de 
quererem tocar aquelas flores 
maravilhosas.  
  
Morre-me a voz,  
de cantar-te,  
  
Sou triste porque a minha alma  
não quer nada, do que tem... 
Porque a minha alma  não 
pode ter nada mais... Sou 
triste, sou triste,  
sou triste porque sonhei 
coisas inalcançáveis, que se 
não devem sonhar!...  


POEMA DAS LÁGRIMAS  

Quando eu fiquei só no alto da 
montanha silênciosa, a noite se 
imobilizou, com todos os seus 
astros e todos os seus 
murmúrios.... Então, deitei-me 
bem perto do coração material 
da terra, e chorei o meu 
remorso  
  
Pedi-lhe que fosse outra 
vez,  
meu berço  
pois que eu voltara a ser  a 
sua criança...  
  
E foi assim, quando eu fiquei 
só, no alto da montanha  
silênciosa, e a noite se 
imobilizou,  
com todos os seus astros e 
todos os seus murmúrios


POEMA DAS BENÇÃOS  
  
Bendito seja aquele que eu canto, e 
que é o meu eleito, - embora eu 
tenha de viver, sempre, sem poder 
conhecê-lo e sem poder encontrá
lo... Bendito seja a alegria do meu 
coração no tempo da saudade em 
que sonhava que me parecesse.... 
Bendita seja a desventura dos 
desenganados, que abateram na 
minha alma como um tufão sobre as 
jasmins. Benditas sejam as minhas 
súplicas, que ninguém ouviu, e as 
minhas lágrimas,  
que ninguém enxugou,  
para que eu sentisse até o fim 
a minha terrível, a minha 
gloriosa, a minha divina 
dor... Bendito seja tudo o que  
eu fui, tudo quanto tiver de 
ser, pois que eu sinto os 
destinos  
descendo das mãos d’ aquele 
que eu canto, e que é o meu 
eleito, - embora eu tenha de 
viver sempre, sem poder 
conhece-lo e sem poder 
encontra-lo....  


TERCEIRA PARTE POEMA DA SOLIDÃO  

Já muitos sóis e muitas luas 
passaram sobre a montanha  
de que fiz o meu lar...  
  
tenho medo de que, em breve, a 
escuridão se eternize,  
de que nunca mais amanheça, de 
que, também a luz não venha 
nunca mais...  
tenho medo dos meus olhos, que 
podem deixar de vê-la - e eu ficaria 
perdida de mim mesma, dentro da 
noite toda fechada... 


POEMA DA DOR  

Quando foi que os nossos olhos 
se ergueram para o céu, e os 
nossos braços se abriram para 
os horizontes.  
  
Quando foi que choraram, 
os nossos olhos, e os 
nossos braços, desiludidos, 
caíram, e, sem coragem 
morreram?  
  
Quando foi que eu vivi 
daquela vida que dá o amor, 
esperando o que não veio, por 
noites e noites  
  
Ó minha dor, ó minha dor, como 
nós sofremos!  

É hora de fechar os templos!...  


POEMA DA RENÚNCIA  
  
Ser para os infelizes, o 
manto que se estende, á 
hora da tempestade,  
  
Gosto da suprema renúncia  
  
E dispersa-se...  
  
Deixar de ser!...  
Deixar de ser!...  
.....................................................  
Dar a serenidade dos meus olhos 
aos cegos para verem, e, aos 
enfermos,  
dar minha coragem de 
caminhar!  


POEMA DA HUMILDADE  
  
Curvar-me até o chão, até 
a alma primitiva  
dos seres...  
Falar tudo o que anda de rastros, 
a tudo o que principia, a tudo 
que desperta...  
Curvar-me até o chão.  
Descer! ...  
Chegar até á alma última das 
criaturas!  
Descer! ...  
Curvar-me ate o chão...  
Mais abaixo do chão...  
Muito abaixo do chão.  


POEMA DA SABEDORIA   

Tinham-me ensinado que a vida  
era a alegria de abrir os 
braços ao sol, 
despertando,  
a curvar a fronte, saudando a 
noite e adormecendo... Tinham
me ensinado que a vida era o 
castigo remoto da dor dos risos 
que se riem e das lágrimas que 
se deixam correr... Tinham-me 
ensinado que a vida  
era o silêncio e o descanso... E 
muitas, e ainda outras coisas 
muitas... Sofri a ascensão 
dolorosa de quem vai, numa 
noite negra,  
por entre escarpas...  
E, lá, no alto, era o exílio  

...................................  
Sabedoria! Sabedoria! Só te 
encontrei nos abismos,  
quando vim descendo  
da altura da solidão...  
Depois do renunciamento...  
Depois de tudo e de todos...  
Depois de mim...  
Sabedoria! Sabedoria! Abençoa-me,  
porque sofri, buscando-te! E, 
por encontrar-te e querer-te, 
faze-te meu Destino...  
Deixa-me viver em Ti!..."

Em Nunca mais... E poema dos poemas


Fragmento  

Eu falava no mar como alguém que recorda 
seus pais. E amava todo o aparelho naval: - o 
grosso cheiro de óleo, o contorno da corda, o 
arrastar da corrente -  e águas, e brisa e sal.  
  
Eu pisava no cais com marítimo passo.  
Invejava o molusco em líquen pelas quilhas. E 
minha alma era um grito às gaivotas no espaço, e 
paixão de encontrar cabos, recifes, ilhas.  
  
Que me diz hoje o mar, e que me diz o vento, que 
me diz esse amor, sem lugar para mim?  
De tudo se desprende um triste pensamento.  
No mais longe horizonte avisto o breve fim.  
  
Tudo igual, em redor. Tudo, de qualquer lado, 
preso no seu limite, em seu tempo, em seu luto. E o 
mar que eu via, o mar eterno, continuado, grande 
por ser sozinho, imortal, absoluto...?  


Epitáfio  
  
Ainda correm lágrimas pelos   
teus grisalhos, tristes cabelos,   
na terra vã desintegrados,   em 
pequenas flores tornados.   
  
 Todos os dias estás viva,   na 
soledade pensativa,   ó simples 
alma grave e pura,   livre de 
qualquer sepultura!   
  
 E não sou mais do que a menina   
que a tua antiga sorte ensina.   E 
caminhamos de mão dada   pelas 
praias da madrugada.  


Se te Abaixasses, Montanha  

Se te abaixasses, montanha,   
poderia ver a mão   daquele 
que não me fala   e a quem 
meus suspiros vão.   
  
 Se te abaixasses, montanha,   
poderia ver a face   daquele 
que se soubesse   deste amor 
talvez chorasse.   
  
 Se te abaixasses, montanha,   
poderia descansar.   Mas não te 
abaixes, que eu quero   lembrar, 
sofrer, esperar.   

1947 
  

Ninguém me venha dar vida   
  
Ninguém me venha dar vida, 
que estou morrendo de amor, 
que estou feliz de morrer, que 
não tenho mal nem dor, que 
estou de sonho ferida, que não 
me quero curar, que estou 
deixando de ser  e não me 
quero encontrar, que estou 
dentro de um navio que sei que 
vai naufragar, já não falo e 
ainda sorrio,  
porque está perto de mim o 
dono verde do mar que 
busquei desde o começo, e 
estava apenas no fim.  
  
Corações, por que chorais? Preparai 
meu arremesso  
para as algas e os corais.  

Fim ditoso, hora feliz:  
guardai meu amor sem preço,  
que só quis a quem não quis.    


Esta que em silêncio  
  
Esta que em silêncio 
abaixa a cabeça e 
escreve uma carta anda 
tão cansada de entregar 
ao mundo mensagens 
de amor  
que até as tulipas 
perto do seu rosto 
lágrimas escorrem e 
de pesarosas têm 
corações negros.  
  
Que até uma brisa que 
vinha passando parou 
nos seus lábios, não se 
moveu mais. Manso beijo 
aéreo de um céu 
compassivo.  

Que até as palavras  que vai escrevendo  vão 
tomando formas de nuvens errantes, de ondas  
pressurosas para a espuma e areia, de passos 
humanos em longos desertos onde é sempre novo o 
horizonte, e o mesmo...  
  
Ah! terrena vida, estranha 
aventura, rumo 
involuntário, perspectiva 
surda.  


Dizei-me com poucas palavras  

Dizei-me com poucas palavras 
aquilo que vos atormenta; 
que são pressurosas e bravas 
as águas do meu pensamento. 

O profundo soluço é breve; 
a morte é um relâmpago apenas, 
Não deixeis qu se alongue a febre 
instantânea a da vossa pena. 

Dizei com tanta justa eloquência 
que haja um círculo, um campo, um halo, 
que se veja, em pleno silêncio, 
no que dizeis, o que se cala. 


Música matinal  

A Onestaldo de Pennafort  
  
Não me digam quem é  
a dona que toca por 
detrás da manhã 
quase noite ainda 
nesta franja de luar do 
velho teclado caminho 
de marfim de pálidas 
Musas.  
  
Ó Mozart de cristal 
desfolhado à brisa de 
orvalho e jasmim!  
  
Cavalos tranqüilos 
mascam trevos de som, 
hastes de sustenidos e 
fieiras de grãos negros  
de semifusas. Bebem a 
água do ar  

E levantam nos olhos  
as ruas do céu.  
  
Não me digam quem é a 
dona da sombra  
imperativa e irreal.  
  
Deixai que a cidade 
encontre ao despertar o 
passaro claro que vem 
de suas mãos  
e das nuvens à terra abre 
asas de luz e suspende em 
seu canto a áurea rosa do 
sol.  

  
ANTIECLESIASTE   
  
Chuva nas nuvens,  
flores nas arvores, lagrimas 
em nós.  
  
Estação de chuva, estação 
de flores.  
O tempo inteiro para as lagrimas.  
Por isso estamos tão extenuados: todos 
os tempos foram de chorar.  

1949  


É CLOA  
   
Não te sirvas, pastor, do meu pascigo, 
pois o rebanho teu não me conformo às 
renúncias do que levo comigo.  
  
Não te sirvas da sombra nem da fronte. Que 
as vezes que murmuram não são delas,  
Mas de lábios mais longe que o horizonte...  


Sereia em terra  
  
Sou do mar, em mar andava, E 
em bosques submarinos por teu 
nome perguntava.  
  
Até nos olhos tenho água:  
Já não sei mais se das ondas.  
Provavelmente de mágoa.  
  
Ai de mim, que estive em terra! 
procurava e procurava o som 
que nácar encerra.  
  
E hoje canto: Deus me salve! — 
depois de ter entendido tua 
música univalve.  
  
Volto para as minhas ondas, 
Conhecendo-te as respostas mesmo 
quando não me respondes.   

E dançarei de alegria,  
sem pergunta mais nenhuma  
até meu último dia.  


Não se chora apenas...   

Não se chora apenas com a noite estendida sobre 
o sono dos homens, com o silêncio pulsando em 
poros de imperceptíveis silvos  
trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns.  
  
Não se chora apenas com a solidão concentrada 
em firmes bosques, num chão de sombras por 
onde as lágrimas se embebam,  
e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença.  
  
Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro.  
Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite, é do silêncio, é do deserto...  
da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva...  
  Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado.  

Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios, nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres.  

Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida,  
alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços.  
  
Nem é de nós, nem nos pertence. Sentimos que 
é da terra e dos homens, da desordem do 
tempo, da espada das paixões sobre o peito do 
sonho. 


Eternidade inútil   

Até morrer estarei enamorada de 
coisas impossíveis:  
  
tudo que invento, apenas, e 
dura menos que eu, que 
chega e passa.  
  
Não chorarei minha triste brevidade: 
unicamente a alheia, a esperança 
plantada em tristes dunas, em vento, em 
nuvens, n’água.  
  
A pronta decadência, a 
fuga súbita de cada 
coisa amada.  
  
O amor sozinho vagava. Sem 
mais nada além de mim... numa 
eternidade inútil.  


Luar póstumo   

Numa noite de lua escreverei palavras, simples 
palavras tão certas que hão de voar para longe, 
com asas súbitas, e pousar nessas torres das mudas 
vidas inquietas.  
  
O luar que esteve nos meus olhos, uma noite, 
nascerá de novo no mundo.  
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados, livre 
de pálpebras, e num país sem muros.  
  
Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno, é 
doce caminhar, viver o que se vive.  
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?  
E estar próximo é tão impossível!  


Epigramas  

  
A bela dama despojada não 
lhe restava mais nada, depois 
das batalhas ávidas.  
  
A bela dama despojada  
Não podia dizer nada.  
(Não lhe restavam nem lágrimas)  
  

II  
  
As mãos foram um desenho sem sentido um 
dia sonhamos que existimos.  
Vivemos desse sonho.  
E dentro dele fomos tão desgraçados...  
  
Quando recordamos esse sonho sonhado?  
Onde recordaremos este sonho acabado?  
  
Quem seremos, depois dessa antiga aventura?  
e em que abismos de lembrança  
despiremos, afinal, esta couraça tênue de vida, está 
opressão e está fragilidade.  
Este martírio vago e perseverante da memória?   

  
IV  

Não descerias em mim,  
porque a minha torrente   
desmancharia o teu frágil momento  
no rápido trânsito.  


Papeis  

I  
  
Tão aflita, perguntava-me: 
“Por que vim? Por que vim?” 
Era a noite, em redor.   

O grande cobertor da noite envolvia-me, 
opaco, abafava o mundo, as lagrimas, 
as lembranças – e o mistério do dia seguinte.
   
E os olhos abertos não viam nada, 
na fina cegueira da treva: 
a parede mais próxima estava tão longe 
quanto o horizonte, o universo, Deus.   
Inclinava a cabeça nos pulsos onde a idéia 
da vida batia, batia.   

Batia desde muito tempo, com o mesmo compasso, 
regular seguro, obediente.   
Batera assim no meio do céu e no meio do mar, 
nas ruas todas da terra entre coisas banais 
e coisas que pareciam tão graves.   
Batera assim diante de cóleras, 
vaidades, mortes, incompreensões. 

Batera. Batera assim nos campos da infância, 
na eterna madrugada.   
E houve infância?  


II    

A infância era uma vastidão de silencio, 
por mais que cantassem os pássaros,  
e que as tempestades rugissem entre os trovões e o vento.  
Por mais que as ruas se enchessem de vozerio, 
que as conversas familiares circulassem pelas mesas, 
pelas salas, pelos jardins.   

A infância era aquela voz presa atrás de muros. 
Aquela pergunta a subir no tempo.  
Que só o tempo responderá.  


Concerto  

A Mário Quintana 
  
Dentro do perfume vamos: 
perfume da noite, perfume 
da rua, jardim de perfume, 
perfume de casa, perfume de 
incenso.  
Dentro do perfume vamos.  
  
Entre alvores nos sentimos:  
alvores de salas, alvores 
de panos, êxtase de 
alvores, alvores de teclas,  
alvores do tempo…  
Entre alvores nos sentimos.  
  
Dentro da música estamos: 
música de cordas, música de 
outrora,  
– âmago da música –  
música de agora, música 
infinita: dentro da música 
estamos.  
  
Mortais mas eternos somos: 
eternos em almas, eternos em 
gosto, em mistério eternos, 
eternos sonoros, eternos, 
 – mortais e eternos já somos.  
  
Tão longe estávamos, antes. 
tão longe na terra, tão longe 
em cegueira, estranhos, tão 
longe, tão longe e sem nome, 
tão longe e sem rosto, tão 
longe estávamos antes!  
  
Agora, porém, sabemos: sabemos 
um perfume,  
sabemos esta casa,  
que música sabemos! sabemos 
de outros mundos, sabemos 
tudo e todos…  
Para o sempre o sabemos.  


Consultório 

O doente quis ajudar o diagnóstico, Contou coisas antigas, íntimas, minuciosas. 
O médico sacudia a cabeça, um pouco distraído. 
O doente voltou a contar. Pôs uma vírgula que faltava. Tirou lá de um canto da memória um pormenor que ficara na sombra. 
O médico sacudia a cabeça. No seu dedo, a esmeralda resplandecia. Do tamanho de um grão de milho. E luminosa como um domingo ao ar livre. 
O doente acabara a narrativa. A confissão. era um doente bem intencionado. Um homem de consciência. 
O médico levantou-se, e disse: "Muito bem. Aqui o aparelho é que vai falar a verdade". 
E começou a copiar os sinais que a máquina ditava. A máquina sabia mais que o doente.  
A máquina sabia mais que o médico. A máquina sabia mais que a vida. A máquina sabia mais que Deus. 


Quero ir-me embora daqui!  
  
Quero ir-me embora daqui!  
— de mágoa e impossíveis morro.  
Irei para a ilha do corvo?  
Para as ilhas do Taiti?  
  
Oh! Dize, dize-me, tu que me 
conheces e sabes que quero 
portas sem chaves, vento em 
lábios de bambu,  
  
música da solidão, largueza 
de amor eterno, e, como um 
pêndulo certo, sobre o céu 
meu coração.  
  
Deixo a memória no mar. E 
insônias de fina areia 
medirão a vida aceita  pela 
que não pude achar  


HORÁRIO DE TRABALHO    

Depois da treze poderei sofrer: antes, não.  
Tenho os papéis, tenho os telefonemas, 
tenho as obrigações, à hora-certa.    
Depois irei almoçar vagamente para sobreviver, 
para aguentar o sofrimento.    

Então, depois das treze, 
todos os deveres cumpridos, 
disporei o material da dor com a ordem necessária    
para prestar atenção a cada elemento:  
acomodarei no coração meus antigos punhais, 
distribuirei minhas cotas de lágrimas.   

Terminado esse compromisso, 
voltarei ao trabalho habitual.  


SUPÉRFLUO 

A chuva coloca no bico dos pássaros um 
guizo d’água.  
  
A tarde levanta da verde folhagem uma 
espuma de aroma.  
  
Uma vida, quase a teus pés, dirige-te um 
terno pensamento.  
  
Oh, as pequenas coisas supérfluas extraviadas 
no mundo.  
  
Quem ouve? quem vê? quem entende?  

    
MAPA DE ANATOMIA: O OLHO    

O Olho  é  uma  espécie   de  globo  , é  
um  pequeno planeta   com  pinturas  
do  lado  de  fora .  
Muitas  pinturas :  
azuis , verdes, amarelas .  
É  um  globo brilhante  :  
parece  de  cristal ,  
é  como um aquário com plantas finamente  
desenhadas :  algas , sargaços , miniaturas  marinhas 
, areias , rochas , naufrágios e peixes  de  ouro .  
   
Mas  por  dentro há outras  pinturas , que  
não se  vêem :  
umas  são  imagens  do  mundo  , outras  
são  inventadas .  
   
O  Olho  é  um  teatro  por dentro .  
   
E  às  vezes , sejam  atores , sejam cenas ,   
e  às  vezes  sejam   imagens , sejam  ausências 
formam ,   no  Olho ,  lágrimas. 


O carrasco  
  
Todos os dias vinha o carrasco.  
  
Todos os dias chorava de joelhos.  
  
Um dia não chorou mais.  
Suas mãos tinham secado. Já não doíam.  
  
O carrasco estava na sua frente, estupefado, então, 
já não o podia fazer sofrer?  

1954 


Chuva  
  
Sobre as casas fechadas, a chuva.  
Sobre o sono dos homens, a chuva.  
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.  
  
A chuva noturna sobre as arvores. A 
chuva noturna sobre os templos  
A chuva noturna sobre o mar.  
  
Sobre a solidão deste mundo, a chuva.  
A solidão da chuva, na solidão.  

Abril, 1954  


Paisagem e silêncio  
  
O hirto cipreste com pássaros escondidos na rama crespa.  
A rendada folhagem das sucessivas acácias.  
Folhas coloridas, agaves, roseiras descendo entrelaçadas  
A encosta pedregosa.  
  
Para onde foram as borboletas que aqui dançaram?  
  
Os telhados muito velhos, ainda com clarabóias.  
Escuros vãos de janelas, tão longe que não se avista ninguém.  
  
Coníferas, palmeiras. Tudo imóvel, a não ser uma fumaça que sobe azuladamente, entre as arvores.  
  
O flanco da montanha, com seus verdes turvos, 
com sua pedra riscada por sulcos de água.  
Nuvens tempestuosas, grossas nuvens aquosas crescendo insensivelmente, cinzentas, pardas, lívidas.  
São conchas monumentais, balaustradas, zimbórios frágeis.  
Montanhas aéreas de opalas foscas.  
  
De repente, duas pequenas asas fugitivas: - o 
pombo branco.  
Atrás delas, igual a elas, assim clara, alta e rápida, uma voz de criança a correr.  
  
Depois, entre o olhar e a tarde, prossegue o 
silêncio. 

Abril, 1954  


HUMILDADE  

Tanto que fazer! livros que não se lêem, 
cartas que não se escrevem, 
línguas que não se aprendem, 
amor que não se dá, tudo quanto se esquece.    
Amigos entre adeuses, 
crianças chorando na tempestade, 
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis... 
até o fim do mundo assinando papéis.    

E os pássaros detrás de grades de chuva.  
E os mortos em redoma de cânfora.    
(E uma canção tão bela!)    
Tanto que fazer!  E fizemos apenas isto. 
E nunca soubemos quem éramos,  nem pra quê.  

1954 


As pérolas  
  
O mercador dizia-me que as pérolas deste colar 
levaram dez anos a ser reunidas.  
Pequenas perolas  – 
de que mares?  
– de que conchas?  – menores que lagrimas, 
apenas maiores que grãos de areia, transpiração das flores.  

Talvez o mercador mentisse. 
Mas a própria mentira não perturbava a beleza das perolas.  
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos, escuras e magras, 
sob longos olhares pacientes, aquele pequeno orvalho medido, perfurado, 
enfiado para uma criatura de muito longe, desconhecida e inesperada, 
que um dia tinha de recebê-las aqui.  

Maio, 1954  


Visitação  
  
Que a dor venha, quando quiser, como quiser,  
por quem a queira trazer: amigo, inimigo, indiferente.  
  
Sem gritos e hostilidade.  
  
Que o coração não seja como um frio sepulcro, 
mas ardente e sensível e cheio de densas lágrimas.  
  
Que, no entanto o lábio não trema nem se entreabra, 
e os olhos continuem serenos, translúcidos, sem qualquer 
[ esquecimento  
  
Que seja de qualquer espécie, a dor: 
da mais simples, que á a vida, á mais 
em remédio, que é a morte.  
— cedo ou tarde.  
  
Isto não são palavras de página efêmera: isto é 
uma velha inscrição na alma,   
— onde nada se apaga nem deforma.  
  
Ah, se recuperássemos tudo o que amamos e perdemos!  
  
Ah, se recuperássemos tudo o que perdemos!  
Até quando porém, amaremos as mesmas coisas?  
  
Vai mudando o nosso coração de instante a instante.  
O passado tem suas portas e suas chaves.  
Não mais abrir essas casas antigas!  
  
Não mais fitar esses vultos que procurávamos.  
Não mais pronunciar esses nomes.  
  
Mas também a saudade, até quando, até quando a poderemos sentir?  
  
  
Lei    

O que é preciso é entender a solidão!  
O que é preciso é aceitar, mesmo, 
a onda amarga  que leva os mortos.     

O que é preciso é esperar pela estrela  
que ainda não está completa.

     O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,  
e os lábios de ouro puro.     
O que é preciso é que a alma vá e venha;  
e ouça a notícia do tempo,  e, entre os assombros da vida e da morte,  
estenda suas diáfanas asas,  isenta por igual.   
de desejo e de desespero. 

1954 
  
  
A LÁGRIMA QUE SE ACUMULA...  
  
A lágrima que se acumula e tolda momentaneamente a vida é apenas um pétala dessa grande arvore submersa  
onde estão tempos, figuras, palavras ditas e ouvidas, gestos, esforços, renuncias, insônias, misericórdias.  
   
O suspiro é uma brisa paciente que deixa cair tudo isso  
ai! que deixa cair tudo isso em grandes vales de silencio.  
   
Outras lagrimas se sucedem, nessas tristes, intermináveis primaveras.  
E assim vamos, até a morte, sem esquecimento possível, e só valemos pela posição que ocupamos nesse fantástico espetáculo.  

Janeiro 1955  


Até quando terás, minha alma, esta doçura    

Até quando terás, minha alma, esta doçura, 
este dom de sofrer, este poder de amar, a força 
de estar sempre – insegura – segura como a 
flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao 
seu movimento, exata em seu lugar...?  

Fevereiro, 1955  
  

Sobrevivência  

Sobrevivente  
(não de guerras, naufrágios, cataclismas) 
sobrevivente de mim, comtemplo este 
mundo  
a que algum dia julgamos pertencer.  
(algum dia breve, logo em desuso e esquecimento.)  
  
E em redor é um reino de exílio: — 
ninguém sonhou sobreviver o 
mundo aprende morte, apenas.  
  

Canção    

Fui fechar a janela ao vento.  
— vento, por que vens aqui?  
Eu amo os papéis que leio!  
  
Vento, quero ir também contigo.  
— Mais longe contigo,  
Vento voarei.  
  

Felizes os que podem mover facilmente os olhos...  
  
Felizes os que podem mover facilmente os olhos, 
sem os ver transbordar, oh! abrir e fechar as 
pálpebras de mil modos, refletir as variedades do 
mundo, revelar as ramagens múltiplas e delicadas 
da alma  
- levemente.  
  
Eu, do coração para cima sou toda lagrimas:  
qualquer movimento abala esta secreta arquitetura, 
qualquer pequeno descuido pode derramar este oceano sempre crescente.  
  
Felizes as folhas que o vento da sua carga de orvalho.  
Felizes.  
Mas o Anjo repete-me sobre cada passo do ponteiro:  
“Sustenta a agonia para sempre intacta!”  
Para sempre a sustento.  

Agosto, 1955  


IV  

Minha infância foi sobre um velho tapete oriental.  
  
E sempre me pareceu que o desenho era uma escrita:  
que o tapete falava coisas,  
— eu é que ainda o não podia entender.  


V   
  
Mas por que sempre lembrar essas coisas 
longínquas?  
A verdade, porém é que há uns dias inesquecíveis, 
uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.  
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.  
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções, 
por muitos anos que vivamos, apesar de viagens, 
experiências, realizações, sonhos, saber...  
Vivemos tudo – o humano e o universal – nuns 
pequenos instantes, obscuros e essenciais.  
  
Todos os dias assim, de chuvinha fina, penso 
em velhas cenas de infância:  
a tarde em que comia um pedaço de maçã  
e conheci o arco íris; o livro em que estudava 
francês, com uma gravura de crianças felizes, 
que riam para o ar: La pluie; a minha solidão 
com tesouras, cola e cartolina:  

“Brinquedos para os dias de chuva...”  
  
Tudo isso vem `a minha memória, 
como visitantes inesperados.  
Interrompo o que estou fazendo, 
tenho um pena imensa de mim.  
Depois, penso em velhos poemas chineses, 
curtos e leves.  
  
Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais. 

Setembro, 1955  


Pequeno poema de Ouro Preto   

A Rodrigo M.F. de Andrade   

Quem é a dona que toca?  
Fechei os olhos, não vi.  
Que nunca se abra a cortina  
quando eu passar por aqui.  

Sonho seus longos cabelos  
como harpa, na escuridão;  
seus olhos de prata, esquivos,  
e uma perola nublosa  
no nácar de sua mão.   

O que a dona vai tocando?  
Que importa? Seja o que for.  
Tudo aqui fora á saudade.  
Lá dentro, seria amor.  
  
O piano que a dona toca,  
de onde, de que tempo vem?  

E o que eu penso, enquanto a escuto,  
ela o pensará também? 


PRELÚDIO DA MONÇÃO    

Vai chover muito.  
 No jardim que se esboroa de secura,   cada 
folha suplica uma gota d´água.  
  
Os passarinhos já fecham os olhos,  
antes que o sol lhes seque  o pingo 
líquido dos olhos.  
  
 As cigarras crepitam,  queimadas sobre 
os troncos ardentes.  
 Sai o halo do fogo de dentro das pedras.  
Não há nada a fazer, senão descair  como 
as lânguidas palmas.  
 Esperar que seja possível a vida.  
  
Vai chover muito:  
 tudo está olhando para as nuvens que 
engrossam,  que tropeçam no seu peso,  se 
acomodam para choverem tranquilamente.  

Ah! como vai chover…  

A ordem virá de um vento brando  que 
ainda se adestra longe.  
 Seu corcel pulará de súbito no alto do monte  e 
seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.  
  
 Talvez o mar já sinta o comando remoto  e 
esteja concentrando seus cristais verdes,  
estendendo sua pequena espuma fatigada,  
cavando sua cavernas roxas,  oleosas 
campânulas súbitas,  nesse campo de 
estranhas metamorfoses.  
  
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,  

e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.  
 As areias se moverão, timidamente, em seus lugares  
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.  
  
 Como vai chover!  
  

Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…  
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,  
  
e o látego do invisível ginete  ziguezagueia e 
esconde-se.  
  
 Vai chover toda a noite:  
 — no sono abafado da floresta profunda;  
 — nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;  
 — no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro  
 — nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;  
 — nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;  
 — nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.  
  
 Vai cair uma chuva intensa,  pelos 
vestidos dos santos,  pelos cabelos 
dos colegiais,  pelos vidros dos  
palácios,  pelas escadas dos asilos,  
pelos pátios dos manicômios,  dos 
hospitais e dos necrotérios...  
  Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as 
coisas,  que tudo ficará abolido;   mas ficará 
purificado?  
  
 Mesmo a palavra de amor,   o suspiro 
de agonia,  o protesto, o riso, o lamento  
serão levados nessa chuva poderosa.  
  
 Ninguém poderá levantar a mão  
 e agarrar e prender como a trança de uma 
mulher,  a crina de um animal ou a ramagem 
de uma árvore,  essa livre chuva sem dono 
humano  que cai sozinha e governa.  
  
 Só quando o temporal cessar,  e os ralos 
das tristes cidades sossegarem,  se poderá 
subir o que sobrevive,   se alguma coisa 
recomeçará.  


Calmamente recolheremos estas palavras  

Calmamente recolheremos estas palavras, uma 
por uma, com certo piedade triste e oculta.  
  
E a algum cemitério íntimo infrequentado as 
levaremos sem qualquer acompanhamento,  
  
antes de irmos nós mesmos para  esse mundo separado.  
Levaremos nossas palavras a pequenas sepulturas.  
  
Por que ficaria de nós este despojo extraviado, 
indefeso, na discussão dos homens sem acordo?  
  
E os nossos cadáveres longe, sem poderem levantar  
as mãos, nem inventar voz para chama-lás e explicá-las.  
  
Ah, como apagaremos nosso vestígio pela terra, 
nós, os netos dos que quiseram  deixar sulcos e estátuas à sua passagem!  

  
Soneto antigo 

Responder a perguntas não respondo. 
Perguntas impossíveis não pergunto. 
Só do que sei de mim aos outros conto: 
de mim, atravessada pelo mundo. 

Toda a minha experiência, o meu estudo, 
sou eu mesma que, em solidão paciente, 
recolho do que em mim observo e escuto 
muda lição, que ninguém mais entende. 

O que sou vale mais do que o meu canto. 
Apenas em linguagem vou dizendo 
caminhos invisíveis por onde ando. 

Tudo é secreto e de remoto exemplo. 
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo. 

E todos somos pura flor de vento. 


 Neste Longo Exercício de Alma... 

Ciência, amor, sabedoria, 
- tudo jaz muito longe, sempre... 
(Imensamente fora do nosso alcance!) 

Desmancha-se o átomo, 
domina-se a lágrima, 
vence-se o abismo: 
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados, 
e é-se um pequeno segredo 
sobre um grande segredo. 

Tristes ainda seremos por muito tempo, 
embora de uma nobre tristeza, 
nós, os que o sol e a lua 
todos os dias encontram, 
no espelho do silêncio refletidos, 
neste longo exercício de alma. 

1955 


Mensagem a um desconhecido  
  
Teu bom pensamento longínquo me emociona. 
Tu, que apenas me leste, acreditaste em mim, e 
me entendeste profundamente.  
  
Isso me consola dos que me viram, a quem 
mostrei toda a minha alma, e continuaram 
ignorantes de tudo que sou, como se nunca 
me tivessem encontrado.  

Fevereiro, 1956  
  

Vôo 

Alheias e nossas As palavras voam. Bando de borboletas multicores, 
As palavras voam. Bando azul de andorinhas, 
Bando de gaivotas brancas, As palavras voam. 
Voam as palavras Como águias imensas. Como escuros morcegos 
Como negros abutres, As palavras voam. 

Oh! Alto e baixo Em círculos e retas 
Acima de nós, 
em redor de nós As palavras voam. 

E às vezes pousam. 


Contaria uma história simples  
  
Contaria uma história simples, facílima: a 
história da minha vida. E todos 
pensariam que dramatizava um fabuloso 
feito, um mito arqueológico ou 
inverídico, e não diriam: “que criatura da 
dor!” mas: “que imaginativa criatura!”  
  
Então, prefiro devolver ao silêncio 
essa espécie de monstruosa aventura 
que invisivelmente acontece e sobre a 
qual todos se sentiriam capazes de 
opinar, sem a conhecerem.  

1956  


BIOGRAFIA    

Escreverás meu nome com todas as letras, com 
todas as datas,  
— e não serei eu. Repetirás o que me ouviste, 
o que leste de mim, e mostraras meu retrato,  
— e nada disso serei eu Dirás coisas 
imaginárias, invenções sutis, 
engenhosas teorias,  
— e continuarei ausente, Somos 
uma difícil unidade, de muitos 
instantes mínimos,  
— isso serei eu,  
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, 
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente,  
— Como me poderão encontrar? Novos e 
antigos todos os dias, transparentes e opacos, 
segundo o giro da luz, nós mesmos nos 
procuramos.  
E por entre as circunstâncias fluímos, leves e 
livres corno a cascata pelas pedras. — Que 
mortal nos poderia prender?  
   
  
Como alguém que acordou muito tarde  
  
Como alguém que acordou muito tarde,  
e sente falta do dia passado, do dia 
desconhecido  que esteve sobre os seus olhos 
fechados repleto de movimento e dança, todos 
os dias choramos, secretamente, sem lagrimas 
nem consciência, alguma coisa que se passou 
fora de nós.    
E suspiramos com um suspiro vazio, e 
entristecemos, de repente.  

1957  


Da solidão  
  
Estarei só. Não por separada, não por evadida.  
Pela natureza de ser só.  
  
No entanto, a multidão tem sua musica, seu 
ritmo, seu calor, e deve ser uma felicidade, 
às vezes, ser na multidão o que o peixe é no 
oceano.  
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!  
  
Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.  
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde 
alguma palavra.  
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,  
pode ser que sentisse como os desertos 
amontoavam suas areias entre meu 
pensamento e o horizonte. Mas o deserto 
tem sua musica, seu ritmo, seu calor.   
Era uma solidão que outrora se levava nos dedos, 
como a chave do silencio. Uma solidão de infância 
sobre a qual se podia brincar, como sobre um 
tapete.  
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores, onde há vento.  
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir, 
pensar, sofrer, amar,  uma solidão como um 
corpo, fechado sobre a noção que temos de 
nós: como a noção que temos de nós.  
  
E andava, e sorria, cumprimentava e fazia 
discursos, dava autógrafos, abria a janela, conhecia 
gavetas, chaves, endereços, comprava, lia, 
recordava, sonhava, às vezes pensava – Solidão – e 
logo seguia, tinha até dinheiro comigo, tinha 
palavras, também,  
que escolhia, dava, usava, recusava...  
  
Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas, 
andava por essas fortalezas da noite, essas escadas, 
essas plataformas, essas pedras... e deitava-me  
sobre o mar, sobre as florestas, deitava-me assim – 
aldeias? cidades?  

O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,  
onde quer que estivesse deitada.  
  
Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.  
  
Se me chamares, responderei, mas serei solidão.  
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.  
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei: como o eco.  
Mas és tu que vens e voltas: a tua 
solidão e a minha solidão.  

1958 


 Juramento  

Fácil é dizer: “ Minha alma... “ Difícil, 
saber o que pode ser nosso  
no mundo além.  
Difícil saber que alma vemos, que alma existe, a 
que alma dirigimos nosso amor.  
  
Fácil é dizer: “ ... eu te amo... “ Difícil saber que 
amor sentimos, damos, desejamos,  que poder é 
esse que obriga o sangue, o pulso, a vida, em que 
obscuras direções.  
  
Fácil é dizer: “ ... para sempre... “ 
Difícil saber até onde ressoa tão 
grande juramento.  
E onde está para nós a eternidade, o firme bronze  
onde inscrevemos nossa voz.  
  
“ Minha alma, eu te amo para sempre... “  
Letras de lágrimas balbuciamos   
  
  
Agora  
  
Não já não é como outrora,  
  
Não, não, não, tudo é triste de uma tristeza diferente.  
Sem suspiros, sem lágrimas, sem essa doce névoa antiga  
  
Agora é assim como um plano de escritório,  
Como um sistema de vendas a crédito,  
Um projétil, uma vacina.  
  
Agora, agora, agora, somos um número de porta,  
um número de telefone,  
  
Um número no cartão de identidade,  
Talvez um número no cemitério:  
  
Um número qualquer, na ordem numérica infinita.  


Canção  
  
Belo era o tempo  
e a flor abriu-se  
á margem do rio.  
  
Bela era a flor e o menino 
inclinou-se e escorregou para 
as águas.  
  
Belo era o menino e o 
pai quis salva-lo entre 
limos e espumas.  
  
Bela era a morte,  
mensagem de Deus,  
na corrente do amor.  
  
Belo era o tempo.  
  
Bela era a avida.  

Bela era a flor  


Além das paredes, dos móveis  
  
Além das paredes, dos móveis, 
principalmente o espelho, principalmente o 
relógio.  
  
Além das portas com seus caminhos,  
Além da janela com seu pensar,  
  
Estão as palavras.  
  
As palavras pousadas aqui e ali, sem 
poeira.  
Límpidas, nítidas, como objetos de ouro.  
  
Sobre elas amanhece e anoitece.  
São invulneráveis.  
Fiéis a si mesmas.  
  
As palavras não morrem.  
Tão leves e cheias de eternidade.  

E assim estão em redor de nós, 
com sua substância, e há  


dentro delas eternos olhos que 
nos fitam.  
  

Como alguém que encontrou um povo em ruínas  
  
Como alguém que encontrou um povo ruínas  
e sua casa incendiada e seu 
mundo vencido e se recusou a 
morrer de dor e levantou 
muros e ressuscitou mortos e 
abriu janelas e acendeu luzes 
e semeou campos  
e pregou no céu novas estrelas e 
trabalhou cheia de lágrimas  e 
amou o que tinha feito e desejou 
cantar,  
  
— assim me encarou o rosto de olhos líquidos no ato da noite.  
  
Como alguém que recebeu a morte 
daqueles que ressuscitou entre 
muros erguidos  
e as janelas abertas, e as 
luzes acesas e os campos 
onde antes  

e as estrelas gloriosas, e 
desejou sorrir  
  
— assim me encarou o rosto de olhos líquidos no alto da noite.  


Manhã de Chuva na Infância  
  
Ao longo do muro, as campânulas escorrem,  
gelatinosas, ainda 
coradas, ainda 
cheirosas, e já 
mortas.  
  
Eu sou a menina que vai para a escola com 
seu casaquinho vermelho,  
e os seus livros forrados de papel azul.  
  
A chuva continua a bater nas flores, a 
avivar as cores dos muros, a 
gorgolejar nas calhas, a correr para os 
negros bueiros.  
  
  
  Procurei meu rosto na água, nos vidros, nos olhos alheios  
  
Procurei meu rosto na água, nos vidros, nos olhos alheios.  
Duvidarei de mim, que me contemplo da água, 
dos vidros, dos olhos que me refletem.  
  
E sempre me sentirei a mesma e sempre diferente.  
  
Procurarei meu rosto dentro da terra, no chão do planeta onde 
[ vou ficar.  
  

Canção  
  
Se não chover nem ventar, se a 
lua e o sol forem limpos e 
houver festa pelo mar,  
— ir-te-ei visitar.  
  
Se o chão se cobrir de flor, e 
o endereço estiver claro e o 
mundo livre de dor,  
— ir-te-ei ver, amor.  
  
Se o tempo não tiver fim, se a 
terra e o céu se encontrarem à 
porta do teu jardim,  
— espera por mim.  
  
Cantarei minha canção com violas 
de eternamente que são de alma e 
em alma estão.  
— De outro modo, não.  

Maio 1960  


PARA ONDE É QUE VÃO OS VERSOS  
  
Para onde é que vão os versos  que 
às vezes passam por mim  como 
pássaros libertos?   
  
Deixo-os passar sem captura,  vejo-os 
seguirem pelo ar   
─ um outro ai, de outros jardins...   
  
Aonde irão? A que criaturas  se 
destinam, que os alcançam  para 
os possuir e amestrar?   
  
De onde vêm? Quem os projeta  
como translúcidas setas?  E eu, 
por que os deixo passar,  como 
alheias esperanças?  


Falai de Deus com a clareza  
  
Falai de Deus com a clareza da 
verdade e da certeza: com um 
poder  
  
de corpo e alma que não possa 
ninguém, à passagem vossa, não o 
entender.  
  
Falai de Deus brandamente, que o 
mundo se pôs dolente,  
tão sem leis.    
Falai de Deus com doçura,  
que é difícil ser criatura: bem o 
sabeis.  
  
Falai de Deus de tal modo que 
por Ele o mundo todo tenha 
amor 

à vida e à morte, e, de vê-Lo,  

o escolha como modelo  
superior.   
  
Com voz, pensamentos e atos 
representai tão exatos os reinos 
seus  
  
que todos vão livremente para 
esse encontro excelente.  
Falai de Deus.  


Esboço de cantiga    

Subo e desço noite e dia noite 
e dia subo e desço por mil 
escadas de nuvens no castelo 
em que padeço.  
  
Subo com ramos de flores, e a 
água dos jarros esqueço, há 
mil escadas de nuvens no 
trabalho que ofereço.  
  
Ai, que trabalho tão grande nas 
nuvens que subo e desço não só 
por águas e flores, mas recados 
de mais preço.  
  
Que me mandam, que me chamam, Neste 
fim nem começo,  
castelo entre a vida e a morte. de 
um dono que não conheço.  
Subo e desço noite e dia.  

Gosto-me e desapareço... Ai 
que castelo tão alto, tão alto 
e sem endereço!  

1961 


EIS A CASA    

Eis a casa  
menos que ar imponderável, no 
entanto é branca de camélia e 
tem perfume de cal  
  
Com seus corredores  
  
O alpendre  
  
As janelas uma a uma  
  
Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando  
O gasômetro  
  
Vêem-se as árvores por cima com suas flores  
  
A casa imponderável  
  
Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro  

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz  
  
A água a pingar cheira a musgo, 
soa metálica, trêmula insetos 
pássaros líquidos pequenas 
estrelas clarins muito longe  
  
Peitoris gastos de braços antigos  
Sombras de borboletas  
  
Eu sei quem comprou a terra quem 
pensou nos desenhos quem 
carregou as telhas  
  
Passam legiões de formigas pelos patamares  
  
Eu sei de quem era a casa 
quem morou na casa quem 
morreu  
  
Eu sei quem não pôde viver na casa  
    é uma casa com 
seus andares  
 suas escadas seus 
corredores 
varandas 
aposentos 
alvenaria  
muros  
  imponderável.  
  
Uma casa qualquer.  
Cruz que se carrega.  
Imponderávelmente, para sempre, às costas.  

1961 
  
  
SOMOS TRÊS  

Somos três: 
sombra, corpo, alma. 
Cada um a seu modo vivendo 
junto os três andando. 
  
 Corpo vendo a sombra 
corpo sonhando alma. 
  
 Corpo sofrendo com pena 
da alma e da sombra, 
impalpáveis 
num mundo virtual. 
  
 Corpo querendo ser corpo, 
e logo alma apenas. 
Corpo, vulto, mistério,   
fantasma adestrado 
em artes de se julgar vivo, 

no entanto mais efêmero, 
talvez. 
  
 Corpo, no entanto, pensando-se. 
Transferindo-se em alma, 
em sombra. 
  
 Corpo sozinho entre enigmas. 
Vastas areias do tempo 
aladas. 
Sobre o corpo e a sombra. 
  
 E alma também contempla. 

 1961 


Chovia e eu estava como numa floresta de harpas  

Chovia e eu estava como numa floresta de harpas:  
que musica tocarão meus inábeis dedos nas águas celestes?  
  
Nós somos uns grandes cometas com véus de acontecimentos 
arrastados atrás de nós, e cada dia dilatados.  
  
Nós somos uns solitários faróis projetando-nos sobre a noite.  
Deixai-me tocar a musica de hoje, inábil, 
que fica entre o que passou e o que talvez não venha." 

Setembro, 1962  


Linha Reta    
                                                             
A Cassiano Ricardo   

 Não tenteis interromper o pássaro que voa 
em  linha reta de leste a oeste. 

Alto e só.    
Não lhe pergunteis se avista cidades, 
mares, pessoas  ou se tudo é um liso deserto. 
Vasto e só. 
   
Ele não passa para contemplar essas coisas do mundo.   
Ele vem de leste, ele vai para oeste. 

Alto e só.    
Ele vai com sua música dentro dos olhos fechados.   
Quando chegar ao fim, 
                          abrirá os olhos e cantará sua                          
[música.   

Vasta e só.


É Preciso Não Esquecer Nada  

É preciso não esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes nem a oração de cada instante. 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre. 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto, o nosso nome, 
o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, 
a idéia de recompensa e de glória. 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos, 
vigiados pelos próprios olhos severos conosco, 
pois o resto não nos pertence.  

1962 


 Morro do que há no mundo  
  
Morro do que há no mundo: do 
que vi, do que ouvi.  
Morro do que vivi. Morro 
comigo, apenas: com 
lembranças amadas, porém 
desesperadas. Morro cheia 
de assombro por não sentir 
em mim nem princípio nem 
fim. Morro: e a 
circunferência fica, em 
redor, fechada.  
Dentro sou tudo e nada.  

Janeiro 1963  

Em Dispersos

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